A crise do Direito no mundo em crise
Jacob Pinheiro Goldberg*
O “gangsterismo” no mercado de capitais colocou à tona a cronicidade de situação insustentável na “kulturkampf” (guerra cultural) criada pelos fenômenos contemporâneos da simultaneidade, instantaneidade e fugacidade. Realmente, a TV e a internet, instrumentos tecnológicos extraordinários, acabaram, paradoxal e contraditoriamente, expondo a hipocrisia das instancias do Poder, a nível nacional e internacional, que usa o Direito (uma ciência da opressão em suas variáveis as mais insidiosas) para impor uma Justiça, que é o instrumento da Força, com as máscaras e cartas marcadas – polícia, exército, religião, universidade –, enfim as instituições em nome do Sagrado contra o Profano. O Direito na Avenida Paulista não é o direito em Capão Redondo. “Folha de São Paulo”, 1/2/2009: “Ganho de banco brasileiro é 11 vezes maior que o de países ricos”. “Escrava sexual brasileira lidera preço no mercado italiano (5.000 euros).”
Na transição obrigatória do caos para a esperança da lucidez, a partilha do mando político pode representar um movimento libertário.
Estender a fórmula para o Judiciário adequaria o conceito do clássico “terceiro excluído” – a hipervigilância neuronial pode não ser constitucional, mas parte do mecanismo de defesa da culpa. A culpa pela violência, a maldade, a tortura, a exclusão.
Esta é uma tentativa de compreensão das relações entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, máxime das pressões e contrapressões que se estabelecem. Tomar-se-ão elementos fornecidos pela Psicologia Social. Como entender os jogos do Poder numa dimensão coletiva sem acudir aos ensinamentos da ciência do comportamento?
No Brasil, com interrupções históricas de menor significado, temos vivido sob um presidencialismo rígido, quando não sob o regime autocrático, nas palavras de Sampaio Dória: “O Chefe de Estado ou é rei hereditário e perpétuo, cuja vontade decreta e executa as leis ou é um caudilho que, usurpando ao povo a soberania, decreta como poder pessoal as leis que executa ou manda executar. Um e outro, onipotentes e irresponsáveis. Os governados estão paralisados e sem voz, sob o jugo da não-partilha do déspota, coroado ou sem coroa”. Esta é uma realidade profundamente entranhada no psiquismo do Poder em nosso país, e que mereceu uma dissecação, em profundidade, de Oliveira Viana em Instituições Políticas Brasileiras: “Nos engenhos e fazendas, só o senhor decidia, ordenava, mesmo em questões que só interessavam à população moradora e à sua vida econômica”.
O povo não tinha a quem recorrer contra a autoridade onipotente; desarmado, não dispunha de independência de ação e de pensamento, nem do conhecimento prático de qualquer instituição democrática. Carecia de consciência jurídica, decorrente dos costumes e tradições, para determinar o comportamento dos homens na vida pública.
Realmente, nosso domínio rural, como se organizou, não continha, nem em sua estrutura, nem em sua culturologia, nenhuma instituição que o adequasse, como no domínio rural europeu, a se constituir numa escola de preparação das nossas populações rurais para as práticas democráticas, para os hábitos eletivos, para a preparação objetiva do interesse público da comunidade. Das instituições democráticas, o que havia eram as idéias gerais hauridas nas universidades e no direito público dos povos mais avançados nessa questão. A ausência de uma força própria nascida do contexto vivencial da comunidade, de um coeficiente emocional, só possível nos complexos culturais que em suas próprias especificidades a si mesmos se criaram, a ausência em suma de um direito público costumeiro do povo ou consciência jurídica pública, conforme a expressão de Bielsa, é o que teria gerado “o artificialismo de nossas instituições e de nossa formação cultural”.
Quais as implicações reais deste quadro de fundo?
A fundação do governo do pai sobre os filhos. Um Poder que tenta agilizar-se, estender sua influência, fazer-se presente. O Legislativo e o Judiciário diante de um Poder onipotente (com todos os vícios que a exacerbação patológica possa significar), o Executivo.
Essa disputa, o conflito que se trava, encontra sua arquitetura de entendimento na concepção de Freud – a revolta dos irmãos contra a tirania paterna, que, segundo Marcuse, marca o início da civilização.
Por suas características e tipicidades – um contexto que admite ideologias diversas, representadas pelos partidos políticos, discordâncias, propostas diferenciadas de encaminhamento dos conflitos sociais e dos choques de interesses –, o Legislativo assume a condição natural de “representante do povo” e, em decorrência, uma identificação maior com a realidade social na sua globalidade e com a vida psíquica individual. A dinâmica daí originária, não obstante, pode levar, às vezes, os congressistas a rupturas comportamentais infantis carregadas de tônus passional. Esta tendência a partilhar, pelo jogo das compensações, permite certo equilíbrio, evita o pior, mesmo admitindo que o poder único supremo possa dar excelentes resultados, porém, mais frequentemente leva a catástrofes, no entendimento de Alfred Sauvy. O que redunda numa permeabilidade maior com o quarto Poder e a informação de massa, que tende à valorização do debate, auscultando a opinião pública. O Judiciário é como a figuração materna, quase contemplativa.
Não é de estranhar, por isso, que hoje grande parte dos conflitos ente Legislativo e Executivo se estabeleçam sobre a área comum das relações com a imprensa, que deve ter, além dos seus tradicionais papéis de informar e ensinar, o de testemunhar, como catarse da sanidade psicológica do cidadão, desamparado diante do Estado Leviatã. Mesmo porque urge assinalar a tautologia de que não pode existir democracia sem informação, que, por sua vez, depende da postura observadora do Legislativo e do Judiciário na instância política do Estado e da imprensa, na rua. Essa ausência acarretaria a síndrome do abandono para o indivíduo que, frustrado e receoso, acaba por desenvolver sua agressividade e violência.
Por outro lado, o Executivo se considera, o mais das vezes, mesmo quando oriundo do voto popular, o “agente” de uma “vontade nacional” abstrata que ele pretende encarnar. Poder que tende ao exercício individual, numa sistemática de centração autorreferenciada, dificultando a harmonia de inter-relacionamento, pesando-lhe o respeito à imunidade do mandato parlamentar, por exemplo.
Infelizmente, a sociedade hoje vivencia seduções de processos psicológicos regressivos – a minimização das faculdades de comunicação levando a um estado mórbido e ao não-diálogo, a incapacidade para reagir e cumprir a cidadania plena, a facilidade de apelo a elementos de necrofilia –, na concepção de Felipe Ramirez: “O parlamentarismo é cortesia cívica, tolerância, discussão pública, tradição; é, pois sistema exótico em regimes de caudilhagem”. O Judiciário, acaba sendo cartorial.
A autoridade que, por efeito da própria rebelião edipiana mal elaborada, não consegue a reintrojeção de um superego construtivo, tende a medidas coercitivas, promovendo a hostilidade e a arbitrariedade.
É fundamental uma tentativa de reflexão sobre estes processos. Pela demonstração da existência do inconsciente, Freud estabeleceu o princípio do determinismo psíquico, evidenciando que a razão não é a única condutora de nossos comportamentos. O exercício e a divisão do poder precisam ser estudados também sob este enfoque, juntamente com o econômico e o social. Ou então, ficaremos sob o Sísifo, “cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim”. Finalmente, esta introspecção pode permitir a limitação do Executivo, produzindo um efeito moderador e o delineamento da atuação do Legislativo e do Judiciário com bases operacionais vinculadas ao interesse social.
Um ajuste harmônico, fundado num comportamento maduro entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário fica na dependência básica da compreensão dos mecanismos internos e externos de tensões e contratensões. Ou, em detrimento da sociedade, ficam as relações entre os três poderes condicionadas por impulsos de mútua agressividade, sem corresponder às expectativas psicológicas da comunidade, necessitada de modelos de equilíbrio na condução dos negócios públicos como parâmetros de sanidade. Cabe uma citação de Bernard Chantebout: “C’est en effet l’honneur de nos sociétés que d’avoir tenté d’enfermer la conquête et l’exercice du pouvoir dans des règles de Droit” (É com efeito uma honra para nossas sociedades terem se esforçado para consolidar a conquista e o exercício do poder segundo as regras do Direito).
Desmistificando, em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, Humpty Dumpty diz: “Quando uso uma palavra, ela quer dizer aquilo que eu escolhi que deve significar”. A psicologia da força tenta dar esta conotação para a linguagem política e legal em toda parte, em toda época.
As sociedades têm seus códigos em que definem algumas ações como criminosas e outras como aprovadas. Para as primeiras, reservam punições, classificadas como sanções e com o apoio da política organizada.
Em Minas Gerais 70% da população carcerária aguardam julgamento em prisão preventiva.
*Jacob Pinheiro Goldberg nasceu em Juiz de Fora e reside em São Paulo. É psicanalista, doutor em psicologia, advogado e escritor. Entre outros livros, publicados no Brasil e no exterior, se destacam “Psicologia em Curta-metragem”, “Psicologia da Agressividade” e “Magia Wignania”.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Entrevista Universidade Stanford (E.U.A)
Entrevista da Profª Marília Librandi Rocha, da Universidade Stanford (E.U.A), autora da antologia “Poemas Vida” de Jacob Pinheiro Goldberg, com apresentação do profº João Adolfo Hansen (U.S.P).
Marília Librandi Rocha, apresentou a tese de doutoramento... “Parábola e Ponto de Fuga: a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg”, na U.S.P, obtendo nota 10 com distinção e louvor.
ACESSE O LINK:
http://www.stanford.edu/dept/fren-ital/opinions/
Marília Librandi Rocha, apresentou a tese de doutoramento... “Parábola e Ponto de Fuga: a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg”, na U.S.P, obtendo nota 10 com distinção e louvor.
ACESSE O LINK:
http://www.stanford.edu/dept/fren-ital/opinions/
sexta-feira, 17 de abril de 2009
ESTADO DE MINAS
PENSAR -
Sábado, 04 de abril de 2009
A poesia como fonte de vida
A solidão e o estranhamento, tanto existencial quanto geográfico, permeiam a poética de Jacob Pinheiro Goldberg. Ora um choque cultural intenso, ora um ímpeto de comunicação e diálogo. “Espécie de errância interior, trajetória de vida contada e recontada em muitos poemas e textos, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg pode ser descrita como a de uma vida singular tornada estranhos poemas ou poemas-vida.” Assim, Marília Librandi Rocha abre alas para a compreensão de uma obra inquietante. E ao partir desta vertente, para organizar a antologia Poemas-Vida (Editora 7Letras), Marília Librandi Rocha articulou um livro que revela a força poética de um escritor desterritorializado.
Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo há mais de 50 anos, o poeta e psicanalista faz da escrita e da poesia a busca de uma expressão de vida. Em constante processo de criação, a fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Admirador confesso da obra de outro poeta mineiro, Murilo Mendes (1901-1975), como um outsider, Goldberg tem instigado o debate de ideias, a reflexão e, com isso, provocado muita polêmica. O “psicólogo da poética”, nas palavras de Sandra Magalhães, investe na construção poética como um desafio de revirar o passado e apontar para o futuro.
Poemas-Vida deriva de um estudo realizado sobre a obra de Jacob Pinheiro Goldberg, defendido em 2003, como tese de doutorado de Marília Librandi Rocha na Universidade de São Paulo (USP). Marília Librandi partiu da leitura de cerca de 1,2 mil textos publicados nos livros de Goldberg (compreendendo por “textos” uma produção escrita que inclui desde poemas longos, crônicas, artigos, até escritos de uma só frase ou poemas de um só verso), chegando a uma seleção que, segundo seu ponto de vista como organizadora, corresponde a algumas das principais preocupações e tendências da escrita de Goldberg. Os textos foram reunidos em sete tópicos: “Parábola e ponto de fuga”, “O nem insólito”, “Sombra da sombra”, “A carne da memória”, “Bio(necro)grafia”, “Errância” e “Melitzá. Fragmentos poéticos”.
Desde então, Goldberg assumiu os próprios textos, antes guardados em gavetas ou publicados em pequenas edições de autor, e teve sua produção escrita reconhecida por um número significativo de leitores, entre os quais Henryk Siewierski, que traduziu 18 de seus poemas para o polonês. O poeta também publicou, em 2005, o livro Rua Halfeld, Ostroviec, no qual mergulha na esquina imaginária entre a rua mais importante de Juiz de Fora e a cidade natal de seus pais na Polônia.
Vento do mundo
Na opinião de João Adolfo Hansen, professor titular de literatura brasileira na USP, a matéria da poesia de Jacob Goldberg é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. “Na sombra, à esquerda da linguagem, Goldberg escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contraefetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal.”
Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizeram de nós, afirma Hansen. E explica: “Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlândia, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados”.
A antologia Poemas-Vida é uma síntese da reflexão poética de Jacob Pinheiro Goldberg ao longo do tempo, em meio à perplexidade, ao desafio, ao caos e à superação. É um compromisso de vida e um compromisso com a escrita. Enfim, é uma outra forma de respirar.
Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador.
POEMAS-VIDA
De Jacob Pinheiro Goldberg
Editora 7 Letras, 120 páginas, R$ 29
Sábado, 04 de abril de 2009
A poesia como fonte de vida
A solidão e o estranhamento, tanto existencial quanto geográfico, permeiam a poética de Jacob Pinheiro Goldberg. Ora um choque cultural intenso, ora um ímpeto de comunicação e diálogo. “Espécie de errância interior, trajetória de vida contada e recontada em muitos poemas e textos, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg pode ser descrita como a de uma vida singular tornada estranhos poemas ou poemas-vida.” Assim, Marília Librandi Rocha abre alas para a compreensão de uma obra inquietante. E ao partir desta vertente, para organizar a antologia Poemas-Vida (Editora 7Letras), Marília Librandi Rocha articulou um livro que revela a força poética de um escritor desterritorializado.
Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo há mais de 50 anos, o poeta e psicanalista faz da escrita e da poesia a busca de uma expressão de vida. Em constante processo de criação, a fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Admirador confesso da obra de outro poeta mineiro, Murilo Mendes (1901-1975), como um outsider, Goldberg tem instigado o debate de ideias, a reflexão e, com isso, provocado muita polêmica. O “psicólogo da poética”, nas palavras de Sandra Magalhães, investe na construção poética como um desafio de revirar o passado e apontar para o futuro.
Poemas-Vida deriva de um estudo realizado sobre a obra de Jacob Pinheiro Goldberg, defendido em 2003, como tese de doutorado de Marília Librandi Rocha na Universidade de São Paulo (USP). Marília Librandi partiu da leitura de cerca de 1,2 mil textos publicados nos livros de Goldberg (compreendendo por “textos” uma produção escrita que inclui desde poemas longos, crônicas, artigos, até escritos de uma só frase ou poemas de um só verso), chegando a uma seleção que, segundo seu ponto de vista como organizadora, corresponde a algumas das principais preocupações e tendências da escrita de Goldberg. Os textos foram reunidos em sete tópicos: “Parábola e ponto de fuga”, “O nem insólito”, “Sombra da sombra”, “A carne da memória”, “Bio(necro)grafia”, “Errância” e “Melitzá. Fragmentos poéticos”.
Desde então, Goldberg assumiu os próprios textos, antes guardados em gavetas ou publicados em pequenas edições de autor, e teve sua produção escrita reconhecida por um número significativo de leitores, entre os quais Henryk Siewierski, que traduziu 18 de seus poemas para o polonês. O poeta também publicou, em 2005, o livro Rua Halfeld, Ostroviec, no qual mergulha na esquina imaginária entre a rua mais importante de Juiz de Fora e a cidade natal de seus pais na Polônia.
Vento do mundo
Na opinião de João Adolfo Hansen, professor titular de literatura brasileira na USP, a matéria da poesia de Jacob Goldberg é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. “Na sombra, à esquerda da linguagem, Goldberg escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contraefetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal.”
Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizeram de nós, afirma Hansen. E explica: “Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlândia, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados”.
A antologia Poemas-Vida é uma síntese da reflexão poética de Jacob Pinheiro Goldberg ao longo do tempo, em meio à perplexidade, ao desafio, ao caos e à superação. É um compromisso de vida e um compromisso com a escrita. Enfim, é uma outra forma de respirar.
Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador.
POEMAS-VIDA
De Jacob Pinheiro Goldberg
Editora 7 Letras, 120 páginas, R$ 29
quarta-feira, 18 de março de 2009
Vida e morte
JACOB PINHEIRO GOLDBERG
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento
JOÃO PEREIRA Coutinho escreveu um artigo ("Morte e vida", Ilustrada, 25/11) cuja síntese é: as pessoas podem viver com dignidade até os 74 anos, o resto é desperdício, nas suas considerações que refletem profunda tanatofobia.
Alinho reflexões que desenvolvi no trato com as gentes e as palavras.
Não havendo uma política específica para o velho em nosso país, qual o seu lugar e seu papel na sociedade? Da marginalização no mercado de trabalho, oscilando entre a figura acomodada que merece uma distinção de respeito formal e a condição desprezada de ser atípico, principalmente nas grandes metrópoles.
Realmente, o psiquismo social partiu da importação de estereótipos radicais, numa ótica aguda do chamado "choque de gerações": "Não confie em ninguém com mais de 30 anos", seqüela de um período de revolta juvenil que jogou num confuso cadinho -da "beat generation" a Marcuse, das drogas e Katmandu- o interesse pela comercialização e venda de calças jeans, a excêntrica onda dos gurus orientais, onda modista característica da sociedade de consumo, ondas das imagens das baladas e dos surfistas...
Sociedade esta que valoriza a força física e a aparência estética, que procura promover uma faixa etária endeusada -aquela que produz mais, conseqüentemente, perturba menos (embora, formalmente, conteste mais o poder gerontocrático), aplicando seu dinheiro em mercadorias supérfluas, sem senso crítico acabado-, a juventude, vítima fácil de mecanismos ansiolíticos de voracidade, eis que seres em formação.
A tentativa de sinonímia entre jovem, forte e belo, particularmente por uma TV ensandecida (pela exploração nos anúncios provocadores que raiam a pornografia e pela vacuidade na correspondência entre idoso, fraco e feio). Isso num tempo sem compostura ética, em que ser fraco e feio é quase uma patologia que deve ser corrigida pela eliminação física, lembrando o romance de Casares em que, numa Buenos Aires ficcional, os velhos são caçados e mortos nas ruas.
Essa noção do velho amaldiçoado por uma sociedade acelerada, em que os músculos e a grosseria adolescente são colhidos pela permissividade da família e das ideologias avacalhadas, é um reflexo da contrapartida do filicídio, o atentado e a discriminação contra as crianças. Pois, na verdade, a comunidade que desrespeita um de seus estamentos não respeita nenhum.
Diga-se de passagem, essa fenomenologia não é só do nosso tempo. Já os índios nhambiquaras tinham uma só palavra para designar jovem e belo e outra para velho e feio.
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento; a psicologia constata que velhos são os outros, nunca nós mesmos, paradoxo denunciado por Sartre.
Aliás, um de nossos dicionaristas arrola no verbete "velhice": "rabugice ou disparate próprio de velho"; e, em "velho": "desusado, antiquado, obsoleto". Esquecido que era, talvez, da sua própria velhice. Ah, as armadilhas ideológicas da lingüística...
O critério de velhice é muito relativo, dependente que é de fatores subjetivos e objetivos os mais diversos: para Hipócrates, aos 50 anos; para Aristóteles, que associava essa idade ao apogeu do indivíduo, aos 35 anos; e para Dante, aos 45. A menina casadoira acha-se "velha" aos 25 anos...
Sem que se faça a apologia do Matusalém bíblico, uma sociedade só merece a consagração humanística quando entende que "the answer, my friend, is blowin" in the wind", porque, na verdade, começamos a envelhecer a partir do nascimento. A função da vida é acomodar a pessoa ao presente em mudança. Com referência ao idoso, é bem-vinda a criação de uma legislação de amparo, simultânea a uma conscientização, privada e pública, do problema.
O destino se ri dos planos dos homens. Numa cultura narcísica, em que o ser se confunde com o prazer, o uso, o consumo, um presente sem passado e sem futuro, a morte é exilada. Contrariando Freud, o mal-estar não se origina na informação de que o homem é o único animal que sabe da morte. Na verdade, o ser humano é o único animal que sabe da eternidade, e o mal-estar se produz na incerteza, o estreito vagido entre o ir e o vir.
Grande desafio, o maior, paralisa a medicina, intriga a psicologia e provoca a teologia. Qual o sentido da falta de sentido aparente da morte? Qualquer tentativa de lógica nos remete a um raciocínio por semelhança. Qual o sentido ou a falta de sentido do nascimento? Biofilia e necrofilia, pólos opostos que imprimem as margens de nossa vida.
Viver é perigoso, filosofa Guimarães Rosa. Morrer deve ser uma tremenda aventura, diz Peter Pan, e se instaura a dialética do absurdo.
JACOB PINHEIRO GOLDBERG, 75, doutor em psicologia, advogado e escritor, é autor de "Psicologia em curta-metragem" e "Cultura da Agressividade".
Publicado na "Folha de São Paulo" 05/12/2008.
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento
JOÃO PEREIRA Coutinho escreveu um artigo ("Morte e vida", Ilustrada, 25/11) cuja síntese é: as pessoas podem viver com dignidade até os 74 anos, o resto é desperdício, nas suas considerações que refletem profunda tanatofobia.
Alinho reflexões que desenvolvi no trato com as gentes e as palavras.
Não havendo uma política específica para o velho em nosso país, qual o seu lugar e seu papel na sociedade? Da marginalização no mercado de trabalho, oscilando entre a figura acomodada que merece uma distinção de respeito formal e a condição desprezada de ser atípico, principalmente nas grandes metrópoles.
Realmente, o psiquismo social partiu da importação de estereótipos radicais, numa ótica aguda do chamado "choque de gerações": "Não confie em ninguém com mais de 30 anos", seqüela de um período de revolta juvenil que jogou num confuso cadinho -da "beat generation" a Marcuse, das drogas e Katmandu- o interesse pela comercialização e venda de calças jeans, a excêntrica onda dos gurus orientais, onda modista característica da sociedade de consumo, ondas das imagens das baladas e dos surfistas...
Sociedade esta que valoriza a força física e a aparência estética, que procura promover uma faixa etária endeusada -aquela que produz mais, conseqüentemente, perturba menos (embora, formalmente, conteste mais o poder gerontocrático), aplicando seu dinheiro em mercadorias supérfluas, sem senso crítico acabado-, a juventude, vítima fácil de mecanismos ansiolíticos de voracidade, eis que seres em formação.
A tentativa de sinonímia entre jovem, forte e belo, particularmente por uma TV ensandecida (pela exploração nos anúncios provocadores que raiam a pornografia e pela vacuidade na correspondência entre idoso, fraco e feio). Isso num tempo sem compostura ética, em que ser fraco e feio é quase uma patologia que deve ser corrigida pela eliminação física, lembrando o romance de Casares em que, numa Buenos Aires ficcional, os velhos são caçados e mortos nas ruas.
Essa noção do velho amaldiçoado por uma sociedade acelerada, em que os músculos e a grosseria adolescente são colhidos pela permissividade da família e das ideologias avacalhadas, é um reflexo da contrapartida do filicídio, o atentado e a discriminação contra as crianças. Pois, na verdade, a comunidade que desrespeita um de seus estamentos não respeita nenhum.
Diga-se de passagem, essa fenomenologia não é só do nosso tempo. Já os índios nhambiquaras tinham uma só palavra para designar jovem e belo e outra para velho e feio.
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento; a psicologia constata que velhos são os outros, nunca nós mesmos, paradoxo denunciado por Sartre.
Aliás, um de nossos dicionaristas arrola no verbete "velhice": "rabugice ou disparate próprio de velho"; e, em "velho": "desusado, antiquado, obsoleto". Esquecido que era, talvez, da sua própria velhice. Ah, as armadilhas ideológicas da lingüística...
O critério de velhice é muito relativo, dependente que é de fatores subjetivos e objetivos os mais diversos: para Hipócrates, aos 50 anos; para Aristóteles, que associava essa idade ao apogeu do indivíduo, aos 35 anos; e para Dante, aos 45. A menina casadoira acha-se "velha" aos 25 anos...
Sem que se faça a apologia do Matusalém bíblico, uma sociedade só merece a consagração humanística quando entende que "the answer, my friend, is blowin" in the wind", porque, na verdade, começamos a envelhecer a partir do nascimento. A função da vida é acomodar a pessoa ao presente em mudança. Com referência ao idoso, é bem-vinda a criação de uma legislação de amparo, simultânea a uma conscientização, privada e pública, do problema.
O destino se ri dos planos dos homens. Numa cultura narcísica, em que o ser se confunde com o prazer, o uso, o consumo, um presente sem passado e sem futuro, a morte é exilada. Contrariando Freud, o mal-estar não se origina na informação de que o homem é o único animal que sabe da morte. Na verdade, o ser humano é o único animal que sabe da eternidade, e o mal-estar se produz na incerteza, o estreito vagido entre o ir e o vir.
Grande desafio, o maior, paralisa a medicina, intriga a psicologia e provoca a teologia. Qual o sentido da falta de sentido aparente da morte? Qualquer tentativa de lógica nos remete a um raciocínio por semelhança. Qual o sentido ou a falta de sentido do nascimento? Biofilia e necrofilia, pólos opostos que imprimem as margens de nossa vida.
Viver é perigoso, filosofa Guimarães Rosa. Morrer deve ser uma tremenda aventura, diz Peter Pan, e se instaura a dialética do absurdo.
JACOB PINHEIRO GOLDBERG, 75, doutor em psicologia, advogado e escritor, é autor de "Psicologia em curta-metragem" e "Cultura da Agressividade".
Publicado na "Folha de São Paulo" 05/12/2008.
terça-feira, 10 de março de 2009
Crise Sob o Ponto de Vista Psicológico.
O psicólogo, advogado e assistente social Jacob Pinheiro Goldberg fala sobre comportamento social no Brasil e no mundo. Com mais de 200 trabalhos publicados, ele acredita que uma nova postura dos jovens, das crianças e a ascensão das mulheres são fundamentais para uma melhor convivência social.
Dignitas – Como o sr. Analisa o comportamento social no Brasil face aos últimos acontecimentos. A morte de Ayrton Senna marcou final de uma época?
Goldberg – Em primeiro lugar, eu devo dar testemunho da relação pessoal e profissional que tive com Ayrton Senna na condição de consultor pedagógico do “Senninha”, uma chance e uma oportunidade de conhecer uma personalidade que se destacava pela coragem e pela inteireza. Acho que o carisma do Senna, ao contrario do que muitos alegaram, não foi fabricado. Outros ídolos do esporte já morreram no Brasil e não causaram a mesma comoção social. Eu acho que houve uma afinidade eletiva entre os grandes desejos e aspirações da sociedade brasileira e o Ayrton Senna. Hoje somos um país carente de autênticos valores, principalmente através das sucessivas crises morais no campo da política. Então, a perda de credibilidade que a opinião publica passou a ter pelos homens de destaque, se compensou através do sacrifício de alguém que colocava sua própria vida em risco permanentemente, num jogo com a morte. Me parece que o mito Ayrton Senna é extremamente enraizado na sua própria história, não é uma criação da mídia, como alguns pretenderam. A mídia só refletiu a dor e a angustia da perda que o país sofreu. Num livro que publiquei, chamado “A Clave da Morte”, eu discuto muito o expurgo que a sociedade ocidental contemporânea fez da morte. As pessoas vivem como se ninguém morresse, e quando a morte ocorre é tratada como se fosse um episodio incômodo e surpreendente, quando na verdade não existe surpresa nenhuma no fato de que alguém morra, esta é uma realidade inevitável. Hipocritamente, as pessoas tentam imaginar que a morte não existe e quando alguém morre alguém como Ayrton Senna é como se isso nos visitasse e nos informasse “morre sim”. Muitas pessoas choraram não só pelo Senna como também pelos seus entes queridos mortos.
Dignitas – Podemos afirmar, então, que para a sociedade brasileira o Senna era a imagem da pessoa que “deu certo”? Era um referencial de vitória, fama, fortuna, sucesso?
Goldberg – Acho que podemos considerar o Senna a imagem de um ser humano exuberante, alguém que viveu com intensidade a sua vida e sua morte.
Dignitas – Estamos às vésperas de mais um acontecimento importante para os brasileiros, que é a Copa do Mundo, nos EUA. Estranhamente, nessa época, estamos vivenciando uma certa “idolatria” por outro atleta com características diferentes do Senna, que é o caso do Romário. Como ambos capitalizaram simpatia da opinião pública com posturas tão divergentes?
Goldberg – Eu fiz uma palestra recentemente sobre “Paixão e Futebol” e, posteriormente, a “Gazeta Esportiva” publicou dois estudos que fiz sobre a seleção brasileira. O primeiro, publicado há um ano, faz algumas criticas ao técnico Parreira. O outro, mais recente, é um perfil dos jogadores, inclusive do Romário. Existe, de comum, a autenticidade, que é certamente um catalizador de simpatia da opinião publica. Não importa muito os traços de caráter singulares de cada um. O fato é que ambos, cada qual à sua maneira, são indivíduos temperamentais, explosivos, enfim, estão consoantes com seus sentimentos mais profundos. Isso sempre impressiona uma opinião pública esgotada por tanta hipocrisia.
Dignitas – Mesmo com a chegada da Copa, que sempre foi motivo de alegria para os brasileiros, e às vésperas das eleições, na qual elegeremos praticamente todo o quadro político nacional, nota-se um apatia e uma descrença muito grandes da população com ambos os fatos. Por que isso ocorre? Estamos caminhando para onde?
Goldberg – O Brasil, historicamente, tem vivido traumas de perdas muito profundas. Getúlio Vargas se suicidou, frustrando a opinião publica. Jânio Quadros renunciou à Presidência da Republica, decepcionando alguns milhões de eleitores. O presidente Tancredo Neves sobe a rampa do Palácio do Planalto morto. Ulysses Guimarães desaparece num trágico acidente. Agora, a morte de Ayrton Senna, depois do impeachment de um presidente eleito que renovou as esperanças de milhões de pessoas e foi impedido por corrupção. Então, estamos vindo de sucessivas frustrações que vão recalcando as esperanças e criando um clima de ceticismo. O país está cético. Também não podemos esquecer a ingenuidade que existia em torno do esporte, do futebol em particular, está acabando.
Dignitas – O senhor diz isso baseado em que? Nos altos salários dos jogadores?
Goldberg – Não só isso. Por exemplo, o primeiro ministro da Itália, o fascista Berlusconi, precisava da aprovação do Senado para sua indicação. Havia possibilidades de rejeição. Num discurso, Berlusconi tomou a palavra e disse aos senadores: “Vocês não podem esquecer que sou dono do Milan”. Nesse momento, foi aplaudido pelos senadores e sua indicação foi aprovada. Hoje existe um intercambio intenso entre corrupção, política e futebol. É lógico que o povo percebe isso e tem suspeitas. O fato de cada jogador da seleção brasileira ganhar a Copa, receber US$ 100 mil é um contra-senso. Um operário teria que trabalhar mil meses para receber o que cada jogador ganhará. Isso não inspira entusiasmo. O futebol de glória, de legenda, de heroísmo, está corroído.
Dignitas – O voleibol está ocupando esse espaço no coração dos brasileiros, ou ainda é precoce essa afirmação?
Goldberg – É precoce. Mas o fato é que o futebol profissional, com todo esse processo, perderá espaço na espontaneidade. As torcidas, que estão se transformando em verdadeiros bandos selvagens, contribuem para isso. A marginalidade está invadindo as arquibancadas.
Dignitas – Qual a diferença entre mito e ídolo?
Goldberg – O ídolo é o chamado herói, é admirado, respeitado, querido. É alguém que tem uma realidade muito intensa no sonho coletivo das multidões. Ele corresponde ao atavismo e ao arquétipo do cidadão comum. O mito é uma criação, é uma elaboração que tem algo de transcendente. O mito perde o contato direto com a concretude e transforma-se na fantasia, na abstração. Portanto, ele habita mais o imaginário e o simbólico.
Dignitas – Kurt Cobain, o ex-vocalista do Nirvana que se suicidou recentemente, esta sendo considerado um mito para a juventude. É correto esse conceito?
Goldberg – Nós vivemos numa época de rebaixamento de horizontalidade. Tem sido transmitido para a juventude que fé, esperança, decência, humildade, enfim, sentimentos positivos, são piegas e ultrapassados. Isso não é verdade. Eu, que trabalho com o comportamento dos jovens, percebo que, na realidade, o jovem tem a busca que sempre existiu na condição humana, de consonância consigo mesmo, de realização própria, de plenitude. Isso passa muito pela linha da integridade. Só que integridade tem sido considerada como desgastada, isso é fruto de todas as crises sociais contemporâneas, inclusive das guerras e conflitos. Então, um individuo como Kurt Cobain, que é obviamente um doente – alguém que se suicida é sempre um doente – ser transformado em mito e, na verdade, uma exploração brutal que a “imprensa marrom” e uma parte da mídia usam para tocar a sensibilidade, principalmente dos jovens.
Dignitas – Hoje, assistimos ao surgimento de tribos urbanas que não passam por uma organização previa, como acontecia há 20, 30 anos. Tudo acontece de maneira fluídica e é caracterizado por posturas e visuais extremamente depressivos que se contrapõem à época de Woodstock, que representou a ruptura de valores, a liberdade de expressão. O tempo entre os fatos é muito curto. Na sua análise, o que mudou?
Goldberg – Quem trabalha muito bem isso é o autor de “Massa e Poder”, Elias Canetti. Ele diz que as massas têm uma tendência de perda de identidade, são frágeis e ao mesmo tempo perigosas. Perigosas pelo número de pessoas e frágeis pela falta de estrutura de caráter. Elas são desmoralizadas e desmoralizantes e vivem de ondas, os indivíduos são vazios. Qualquer onda é capaz de comovê-los, seduzí-los e fasciná-los. Em um dos meus livros, chamado “Psicologia da Agressividade”, faço uma citação de uma referencia a esse envileciemento, esse empobrecimento dos paradigmas. Qualquer cretino hoje pára numa esquina e grita que é o anunciante de uma nova seita e daqui a pouco terá milhares de seguidores, ou monta um conjunto dizendo ser o representante de satã e será endeusado. Vivemos uma espécie de “guerra de civilização”, os grandes choques culturais da metrópole. A Grande São Paulo, esse enorme acampamento vertical, tem mais gente que todo o Mundo Antigo. Nas grandes cidades, as pessoas não têm inter-relacionamentos e mergulham na solidão mais profunda, quase que na antropofagia.
Dignitas – Qual a influencia da industria cultural e da mídia, principalmente da tevê, no comportamento social contemporâneo?
Goldberg – A televisão no Brasil transformou-se numa escola de crimes e de ignorância. É raríssimo assistirmos a um programa que tenha qualquer densidade informativa profunda, além do que não existe o menor respeito pela sensibilidade do telespector, da criança ao adulto. O mesmo locutor que anuncia uma catástrofe, com o mesmo ar de neutralidade, anuncia uma festa. Isso vai dessensibilizando o telespectador.
Dignitas – A polemica é o grande trunfo de marketing da atualidade?
Goldberg – O que acontece é o seguinte: os ícones foram derrubados. A iconoclastia é uma realidade da nossa época, e isso tem vantagens e desvantagens. A vantagem é que ninguém mais concorda com o papel passivo de “babaca”; essa idéia de admirar alguém gratuitamente, felizmente, terminou. Qualquer individuo que quiser hoje se destacar terá que se submeter a um juízo crítico. A desvantagem é que isso se transformou mais ou menos num vicio de retórica, todo mundo xinga todo mundo porque isso traz audiência. As pessoas se permeabilizam, não instauram um verdadeiro diálogo.
Dignitas – E o que isso gera?
Goldberg – Isso gera uma crise permanente de valores. Porém, não obstante tudo isso, é preciso notar que Caim matou Abel, e não havia explosão demográfica naquela época. O ciúme e a inveja, que são sentimentos que habitam a alma do homem, foram capazes de levar a esse terrível fato. Faz parte da contingência humana ter que aprender a conviver com esses sentimentos difíceis, porém existem aspectos muito positivos na contemporaneidade. Hoje existe mais um senso democrático, existe uma ascensão das mulheres que eu acredito que seja um dos movimentos capazes de mudar toda essa paisagem.
Dignitas – A revolução feminista não está enfraquecida?
Goldberg – Eu acredito que ela ainda nem começou. Na primeira etapa ela tem sido uma revolução com o objetivo de equiparar o direito da mulher aos direitos do homem. Mas o grande contributo feminino nem sequer começou. Ele vai mudar e aliviar, através da sensibilidade, da ternura, dos valores uterinos, a grosseria do machismo que fracassou. O machismo fracassou como civilização e como cultura, ele levou a uma situação de impasse. A periculosidade se instaurou por inteiro em todo o mundo através do mau uso do poder fálico. Chegou a hora de ceder espaço para a mulher.
Dignitas – Além das mulheres, existe algum outro fator que possa abrir novas alternativas para uma melhor convivência social?
Goldberg – Acho que devemos levar em conta as crianças. Essa é uma revolução que ainda não se inaugurou. Elas são tratadas como se fossem adultos mirins, debilóides. Isso não é verdadeiro. A criança tem um papel destacado e precisa ser ouvida, respeitada. Hoje ela é humilhada e desprezada pela falta de força física, assim como a mulher. Os jovens também precisam tomar posições deferentes, ao invés de fazer imitação barata e vulgar da boçalidade da gerontocracia. A press ão de todas as minorias que têm algumas coisas importantes para dizer numa sociedade plural e democrática é fundamental para uma nova convivência social.
Revista Dignitas Salutis – n. 16.
Dignitas – Como o sr. Analisa o comportamento social no Brasil face aos últimos acontecimentos. A morte de Ayrton Senna marcou final de uma época?
Goldberg – Em primeiro lugar, eu devo dar testemunho da relação pessoal e profissional que tive com Ayrton Senna na condição de consultor pedagógico do “Senninha”, uma chance e uma oportunidade de conhecer uma personalidade que se destacava pela coragem e pela inteireza. Acho que o carisma do Senna, ao contrario do que muitos alegaram, não foi fabricado. Outros ídolos do esporte já morreram no Brasil e não causaram a mesma comoção social. Eu acho que houve uma afinidade eletiva entre os grandes desejos e aspirações da sociedade brasileira e o Ayrton Senna. Hoje somos um país carente de autênticos valores, principalmente através das sucessivas crises morais no campo da política. Então, a perda de credibilidade que a opinião publica passou a ter pelos homens de destaque, se compensou através do sacrifício de alguém que colocava sua própria vida em risco permanentemente, num jogo com a morte. Me parece que o mito Ayrton Senna é extremamente enraizado na sua própria história, não é uma criação da mídia, como alguns pretenderam. A mídia só refletiu a dor e a angustia da perda que o país sofreu. Num livro que publiquei, chamado “A Clave da Morte”, eu discuto muito o expurgo que a sociedade ocidental contemporânea fez da morte. As pessoas vivem como se ninguém morresse, e quando a morte ocorre é tratada como se fosse um episodio incômodo e surpreendente, quando na verdade não existe surpresa nenhuma no fato de que alguém morra, esta é uma realidade inevitável. Hipocritamente, as pessoas tentam imaginar que a morte não existe e quando alguém morre alguém como Ayrton Senna é como se isso nos visitasse e nos informasse “morre sim”. Muitas pessoas choraram não só pelo Senna como também pelos seus entes queridos mortos.
Dignitas – Podemos afirmar, então, que para a sociedade brasileira o Senna era a imagem da pessoa que “deu certo”? Era um referencial de vitória, fama, fortuna, sucesso?
Goldberg – Acho que podemos considerar o Senna a imagem de um ser humano exuberante, alguém que viveu com intensidade a sua vida e sua morte.
Dignitas – Estamos às vésperas de mais um acontecimento importante para os brasileiros, que é a Copa do Mundo, nos EUA. Estranhamente, nessa época, estamos vivenciando uma certa “idolatria” por outro atleta com características diferentes do Senna, que é o caso do Romário. Como ambos capitalizaram simpatia da opinião pública com posturas tão divergentes?
Goldberg – Eu fiz uma palestra recentemente sobre “Paixão e Futebol” e, posteriormente, a “Gazeta Esportiva” publicou dois estudos que fiz sobre a seleção brasileira. O primeiro, publicado há um ano, faz algumas criticas ao técnico Parreira. O outro, mais recente, é um perfil dos jogadores, inclusive do Romário. Existe, de comum, a autenticidade, que é certamente um catalizador de simpatia da opinião publica. Não importa muito os traços de caráter singulares de cada um. O fato é que ambos, cada qual à sua maneira, são indivíduos temperamentais, explosivos, enfim, estão consoantes com seus sentimentos mais profundos. Isso sempre impressiona uma opinião pública esgotada por tanta hipocrisia.
Dignitas – Mesmo com a chegada da Copa, que sempre foi motivo de alegria para os brasileiros, e às vésperas das eleições, na qual elegeremos praticamente todo o quadro político nacional, nota-se um apatia e uma descrença muito grandes da população com ambos os fatos. Por que isso ocorre? Estamos caminhando para onde?
Goldberg – O Brasil, historicamente, tem vivido traumas de perdas muito profundas. Getúlio Vargas se suicidou, frustrando a opinião publica. Jânio Quadros renunciou à Presidência da Republica, decepcionando alguns milhões de eleitores. O presidente Tancredo Neves sobe a rampa do Palácio do Planalto morto. Ulysses Guimarães desaparece num trágico acidente. Agora, a morte de Ayrton Senna, depois do impeachment de um presidente eleito que renovou as esperanças de milhões de pessoas e foi impedido por corrupção. Então, estamos vindo de sucessivas frustrações que vão recalcando as esperanças e criando um clima de ceticismo. O país está cético. Também não podemos esquecer a ingenuidade que existia em torno do esporte, do futebol em particular, está acabando.
Dignitas – O senhor diz isso baseado em que? Nos altos salários dos jogadores?
Goldberg – Não só isso. Por exemplo, o primeiro ministro da Itália, o fascista Berlusconi, precisava da aprovação do Senado para sua indicação. Havia possibilidades de rejeição. Num discurso, Berlusconi tomou a palavra e disse aos senadores: “Vocês não podem esquecer que sou dono do Milan”. Nesse momento, foi aplaudido pelos senadores e sua indicação foi aprovada. Hoje existe um intercambio intenso entre corrupção, política e futebol. É lógico que o povo percebe isso e tem suspeitas. O fato de cada jogador da seleção brasileira ganhar a Copa, receber US$ 100 mil é um contra-senso. Um operário teria que trabalhar mil meses para receber o que cada jogador ganhará. Isso não inspira entusiasmo. O futebol de glória, de legenda, de heroísmo, está corroído.
Dignitas – O voleibol está ocupando esse espaço no coração dos brasileiros, ou ainda é precoce essa afirmação?
Goldberg – É precoce. Mas o fato é que o futebol profissional, com todo esse processo, perderá espaço na espontaneidade. As torcidas, que estão se transformando em verdadeiros bandos selvagens, contribuem para isso. A marginalidade está invadindo as arquibancadas.
Dignitas – Qual a diferença entre mito e ídolo?
Goldberg – O ídolo é o chamado herói, é admirado, respeitado, querido. É alguém que tem uma realidade muito intensa no sonho coletivo das multidões. Ele corresponde ao atavismo e ao arquétipo do cidadão comum. O mito é uma criação, é uma elaboração que tem algo de transcendente. O mito perde o contato direto com a concretude e transforma-se na fantasia, na abstração. Portanto, ele habita mais o imaginário e o simbólico.
Dignitas – Kurt Cobain, o ex-vocalista do Nirvana que se suicidou recentemente, esta sendo considerado um mito para a juventude. É correto esse conceito?
Goldberg – Nós vivemos numa época de rebaixamento de horizontalidade. Tem sido transmitido para a juventude que fé, esperança, decência, humildade, enfim, sentimentos positivos, são piegas e ultrapassados. Isso não é verdade. Eu, que trabalho com o comportamento dos jovens, percebo que, na realidade, o jovem tem a busca que sempre existiu na condição humana, de consonância consigo mesmo, de realização própria, de plenitude. Isso passa muito pela linha da integridade. Só que integridade tem sido considerada como desgastada, isso é fruto de todas as crises sociais contemporâneas, inclusive das guerras e conflitos. Então, um individuo como Kurt Cobain, que é obviamente um doente – alguém que se suicida é sempre um doente – ser transformado em mito e, na verdade, uma exploração brutal que a “imprensa marrom” e uma parte da mídia usam para tocar a sensibilidade, principalmente dos jovens.
Dignitas – Hoje, assistimos ao surgimento de tribos urbanas que não passam por uma organização previa, como acontecia há 20, 30 anos. Tudo acontece de maneira fluídica e é caracterizado por posturas e visuais extremamente depressivos que se contrapõem à época de Woodstock, que representou a ruptura de valores, a liberdade de expressão. O tempo entre os fatos é muito curto. Na sua análise, o que mudou?
Goldberg – Quem trabalha muito bem isso é o autor de “Massa e Poder”, Elias Canetti. Ele diz que as massas têm uma tendência de perda de identidade, são frágeis e ao mesmo tempo perigosas. Perigosas pelo número de pessoas e frágeis pela falta de estrutura de caráter. Elas são desmoralizadas e desmoralizantes e vivem de ondas, os indivíduos são vazios. Qualquer onda é capaz de comovê-los, seduzí-los e fasciná-los. Em um dos meus livros, chamado “Psicologia da Agressividade”, faço uma citação de uma referencia a esse envileciemento, esse empobrecimento dos paradigmas. Qualquer cretino hoje pára numa esquina e grita que é o anunciante de uma nova seita e daqui a pouco terá milhares de seguidores, ou monta um conjunto dizendo ser o representante de satã e será endeusado. Vivemos uma espécie de “guerra de civilização”, os grandes choques culturais da metrópole. A Grande São Paulo, esse enorme acampamento vertical, tem mais gente que todo o Mundo Antigo. Nas grandes cidades, as pessoas não têm inter-relacionamentos e mergulham na solidão mais profunda, quase que na antropofagia.
Dignitas – Qual a influencia da industria cultural e da mídia, principalmente da tevê, no comportamento social contemporâneo?
Goldberg – A televisão no Brasil transformou-se numa escola de crimes e de ignorância. É raríssimo assistirmos a um programa que tenha qualquer densidade informativa profunda, além do que não existe o menor respeito pela sensibilidade do telespector, da criança ao adulto. O mesmo locutor que anuncia uma catástrofe, com o mesmo ar de neutralidade, anuncia uma festa. Isso vai dessensibilizando o telespectador.
Dignitas – A polemica é o grande trunfo de marketing da atualidade?
Goldberg – O que acontece é o seguinte: os ícones foram derrubados. A iconoclastia é uma realidade da nossa época, e isso tem vantagens e desvantagens. A vantagem é que ninguém mais concorda com o papel passivo de “babaca”; essa idéia de admirar alguém gratuitamente, felizmente, terminou. Qualquer individuo que quiser hoje se destacar terá que se submeter a um juízo crítico. A desvantagem é que isso se transformou mais ou menos num vicio de retórica, todo mundo xinga todo mundo porque isso traz audiência. As pessoas se permeabilizam, não instauram um verdadeiro diálogo.
Dignitas – E o que isso gera?
Goldberg – Isso gera uma crise permanente de valores. Porém, não obstante tudo isso, é preciso notar que Caim matou Abel, e não havia explosão demográfica naquela época. O ciúme e a inveja, que são sentimentos que habitam a alma do homem, foram capazes de levar a esse terrível fato. Faz parte da contingência humana ter que aprender a conviver com esses sentimentos difíceis, porém existem aspectos muito positivos na contemporaneidade. Hoje existe mais um senso democrático, existe uma ascensão das mulheres que eu acredito que seja um dos movimentos capazes de mudar toda essa paisagem.
Dignitas – A revolução feminista não está enfraquecida?
Goldberg – Eu acredito que ela ainda nem começou. Na primeira etapa ela tem sido uma revolução com o objetivo de equiparar o direito da mulher aos direitos do homem. Mas o grande contributo feminino nem sequer começou. Ele vai mudar e aliviar, através da sensibilidade, da ternura, dos valores uterinos, a grosseria do machismo que fracassou. O machismo fracassou como civilização e como cultura, ele levou a uma situação de impasse. A periculosidade se instaurou por inteiro em todo o mundo através do mau uso do poder fálico. Chegou a hora de ceder espaço para a mulher.
Dignitas – Além das mulheres, existe algum outro fator que possa abrir novas alternativas para uma melhor convivência social?
Goldberg – Acho que devemos levar em conta as crianças. Essa é uma revolução que ainda não se inaugurou. Elas são tratadas como se fossem adultos mirins, debilóides. Isso não é verdadeiro. A criança tem um papel destacado e precisa ser ouvida, respeitada. Hoje ela é humilhada e desprezada pela falta de força física, assim como a mulher. Os jovens também precisam tomar posições deferentes, ao invés de fazer imitação barata e vulgar da boçalidade da gerontocracia. A press ão de todas as minorias que têm algumas coisas importantes para dizer numa sociedade plural e democrática é fundamental para uma nova convivência social.
Revista Dignitas Salutis – n. 16.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Psicanálise e Literatura
Num debate realizado pela “Folha de São Paulo”, na série Diálogos Impertinentes, defendi a tese, politicamente incorreta de que só através da alienação, o individuo se desaliena das amarras aparentes do Real. Penso e falo em cut-up, melitzá. Á quem interessa a linearidade, pergunta Bergman.
É no terreno etéreo e inespacial da subjetividade que a psicanálise e a literatura se entrecruzam numa relação incestuosa e adúltera, eis que rompem regras e fingem rituais.
O mais importante psicanalista de todos os tempos, o que encarou no sentido de enxergar e de encarecer a conduta humana foi Marcel Proust entre os passados possíveis e impossíveis, portanto imperdíveis.
O mais importante romancista de todos os tempos é Zygmunt Freud que criou uma narrativa universal, em cima de uma fábula grega que se dasabrocha e fenece na vida de cada um.
O paciente que se dispõe a desenrolar sua narrativa, conto, romance, poesia é o co-protagonista e co-autor, junto com o psicanalista de um raconto que lembrou Jorge Luiz Borges precisa ser traduzido como “Mil noites e mais uma” e não “As mil e uma noites.”
Scherazade descobre como não se morre (e o paciente como não se adoenta ou como se cura). O sultão não quer um mero “affaire”, os corpos que se unem por uma noite e no orgasmo (a pequena morte da medicina clássica) que finda.
O sultão está em busca de continuação, do final, enfim, do SENTIDO das vidas que se entrelaçam, projeção de sua própria vida, correndo da necrofobía, atrás da eternidade.
O efêmero é a síndrome do pânico que desencadeia sua necrofilia, a vontade de matar e no objeto cadavérico o atestado de sua desimportancia.
Ágape e Eros, demandam uma voz que conta e encanta, o encantador de serpente e um ouvido que ouve e interpreta, o olho que enxerga precisa se distrair ou ler na biblioteca universal, ainda na metáfora borgeana.
Cedo, muito cedo, no curso primário, em Juiz de Fora, aonde nasci, no colégio metodista, Instituto Granbery, vivi a contradição cultural e religiosa de filho deimigrantes judeus poloneses e aluno de assembléia teológica de exaltação a Jesus. Condimentado na vitima de “bullyng”, pelas orelhas de abano e o apelido conseqüente, “Dumbo”. Ou o judeu que crucificou Cristo. Eu, hein?
Não bastava.O pré-nome Pinheiro, dado em homenagem a meu tio Pinkas criava suspeita entre os judeus, Será um “misto”? Embora neto materno do Rabino Aron Elwing, ficava a dúvida paranóica.
E as aflições e esperanças, depressão e euforia daqueles anos em que o Brasil vivia a ERA DA INOCENCIA e que hoje desemboca na ERA DO CINISMO.
Escrevi num dos meus primeiros livros – quem nasceu no meio daquelas montanhas, sem o horizonte do mar, e nestas circunstancias tem a alternativas da poesia ou da demência.
Dom Quixote é o vestibular da modernidade desconstrutiva, na literatura em que Cervantes antecipa a “weltschmerz”, agonia em que Freud desenha o painel do “humano, demasiadamente, humano”, de Goethe.
E se faz a citação que lembra o verso surreal em Dante- “chove na mais alta fantasia”. É no Talmud, este repositório de uma sabedoria não linear que se funda esta arte-ciencia que colore o século XX e há de responder ao século XXI, e não a Economia, Sociologia ou qualquer das chamadas artimanhas que o demônio mentiroso do concreto propõe: “um sonho não interpretado é como uma carta não aberta”.
Quando li, vez primeira, em Luiz de Camões – “Alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente, repousa lá no céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste”, fiquei atento ao literal, o desespero do vate que perdera sua musa inspiradora. Surpreso ao ler uma versão para o inglês do inicio do verso – “ My gentle spirit”, no viés entendi que se tratava do rasgo neurótico. Com a morte da mulher querida, ele, Camões vive e morre. Um em dois, o “insighit” revelou que o Eu iria descansar e o eu minúsculo, seu corpo iria mergulhar na melancolia, na depressão.
Portanto, símile a “O Corvo” de Edgar Alan Poe, o passado, tecido agridoce de lembranças ficaria repetindo o “Nunca mais”, que agora, neste instante, neste momento, neste lugar, nesta estória que estamos elaborando juntos, eu “num causo”, juntando associações e lapsos, ausências e presenças, celebramos em comunhão. Comunhão esta que me reporta a meu pai que contava o “witz”,referido por Freud e que sempre tinha o sabor dum testamento.
Rindo, chorando, no estado que o espanhol define como o de “mala sangre”, ou na gargalhada provocada pela anedota banal, Machado de Assis, cessa, praticamente seu veio maior quando sua mulher, sua ouvinte morre e ele morre em seguida, mesmo porque esta é a suprema manifestação que o americano chama de “serendipty”, o estado em que o universo nos harmoniza com o fluxo enigmático do destino.
Nasrudim, o sábio tolo, do sufismo, recebe os sábios da aldeia que pedem que lhes revele a história da verdade. Nasrudim exige pagamento à população que acorre á praça para ouvi-lo. “Alguém conhece a verdade?”
A população responde em coro-Não! Nasrudim se afasta resmungando, se ninguém conhece a verdade é inútil discutir. Os lideres da aldeia reclamam e Nasrudim retorna e a população já combinou a resposta. “Alguém conhece a verdade? Sim! Responde o coro. Ora se conhecem a verdade vou me embora”. Pela terceira vez os chefes exigem sua presença e a população já preparou outra resposta. Alguém conhece a verdade? “A metade dos presentes responde que sim, a outra metade que não”. Clímax. “Nasrudim sorrindo desfecha – A metade que sabe conte para a metade que não sabe”.
O silencio do psicanalista, os percursos, a tragédia e comédia que se realiza no drama, encontra um ponto de inflexão na obra de Ítalo Svevo, “A consciência de Zeno”.
No prefácio o Doutor S. escreve – “Seja dito, porém que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo: Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou”...
O Premio Nobel de Literatura, japonês Kenzaburo Oe, escreveu um livro semi-auto-biográfico. “Jovens de um novo tempo, despertai”. Trate-se da comovedora história de um pai que tendo um filho deficiente, excepcional, inspira-se em versos do grande poeta William Blake – E tudo se inicia com esta passagem antologica – “Pai!
Pai! Aonde vais? Não andes tão depressa. Fala, pai, com teu filhinho,senão me perderei.”
Or else I shall be lost.
Esta a quintessência do que pretendi com esta exposição e que arremato, com um poema de minha autoria que foi traduzida para o polonês pelo professor Henrik Siewierski, das universidades de Cracovia e de Brasília um peregrino da cultura, publicado no livro “Magia Wygnania”. A incomunicabilidade que tenta se comunicar.
O Cavalo e Eu.
Extasiado, fiquei olhando os olhos do cavalo. Mas enxergava mais o êxtase que os seus olhos.
O cavalo, porém, me olhava e (parece) me enxergava.
E assim, ficamos tão perto nos olhando, e, no entretanto, as infinitas distâncias, sei que jamais o enxergaria.
E ele, o cavalo, quem sabe, pudesse, realmente, me enxergar, como eu mesmo, jamais me veria.
Os objetivos são comuns, da psicanálise e da literatura a compreensão do Outro, o resultado é o mesmo – o fracasso e no fracasso, o êxito – A ruptura do tabu – No Inicio era o Verbo - E no fim, na saga de “Afirma Pereira” de Tabucchí. A Palavra rompendo a representação de Zelig, O kafkeano personagem de Woody Allen.
No fecho , desfecho a intrigante pergunta que embuti no meu verso – “Por onde andará, oh Deus, minha sombra enlouquecida?”
Não é matéria de literatura, não é discurso psicanalítico.
Não a cegueira incurável do obvio sangrento mas a lucidez em Dostoievski.
É no terreno etéreo e inespacial da subjetividade que a psicanálise e a literatura se entrecruzam numa relação incestuosa e adúltera, eis que rompem regras e fingem rituais.
O mais importante psicanalista de todos os tempos, o que encarou no sentido de enxergar e de encarecer a conduta humana foi Marcel Proust entre os passados possíveis e impossíveis, portanto imperdíveis.
O mais importante romancista de todos os tempos é Zygmunt Freud que criou uma narrativa universal, em cima de uma fábula grega que se dasabrocha e fenece na vida de cada um.
O paciente que se dispõe a desenrolar sua narrativa, conto, romance, poesia é o co-protagonista e co-autor, junto com o psicanalista de um raconto que lembrou Jorge Luiz Borges precisa ser traduzido como “Mil noites e mais uma” e não “As mil e uma noites.”
Scherazade descobre como não se morre (e o paciente como não se adoenta ou como se cura). O sultão não quer um mero “affaire”, os corpos que se unem por uma noite e no orgasmo (a pequena morte da medicina clássica) que finda.
O sultão está em busca de continuação, do final, enfim, do SENTIDO das vidas que se entrelaçam, projeção de sua própria vida, correndo da necrofobía, atrás da eternidade.
O efêmero é a síndrome do pânico que desencadeia sua necrofilia, a vontade de matar e no objeto cadavérico o atestado de sua desimportancia.
Ágape e Eros, demandam uma voz que conta e encanta, o encantador de serpente e um ouvido que ouve e interpreta, o olho que enxerga precisa se distrair ou ler na biblioteca universal, ainda na metáfora borgeana.
Cedo, muito cedo, no curso primário, em Juiz de Fora, aonde nasci, no colégio metodista, Instituto Granbery, vivi a contradição cultural e religiosa de filho deimigrantes judeus poloneses e aluno de assembléia teológica de exaltação a Jesus. Condimentado na vitima de “bullyng”, pelas orelhas de abano e o apelido conseqüente, “Dumbo”. Ou o judeu que crucificou Cristo. Eu, hein?
Não bastava.O pré-nome Pinheiro, dado em homenagem a meu tio Pinkas criava suspeita entre os judeus, Será um “misto”? Embora neto materno do Rabino Aron Elwing, ficava a dúvida paranóica.
E as aflições e esperanças, depressão e euforia daqueles anos em que o Brasil vivia a ERA DA INOCENCIA e que hoje desemboca na ERA DO CINISMO.
Escrevi num dos meus primeiros livros – quem nasceu no meio daquelas montanhas, sem o horizonte do mar, e nestas circunstancias tem a alternativas da poesia ou da demência.
Dom Quixote é o vestibular da modernidade desconstrutiva, na literatura em que Cervantes antecipa a “weltschmerz”, agonia em que Freud desenha o painel do “humano, demasiadamente, humano”, de Goethe.
E se faz a citação que lembra o verso surreal em Dante- “chove na mais alta fantasia”. É no Talmud, este repositório de uma sabedoria não linear que se funda esta arte-ciencia que colore o século XX e há de responder ao século XXI, e não a Economia, Sociologia ou qualquer das chamadas artimanhas que o demônio mentiroso do concreto propõe: “um sonho não interpretado é como uma carta não aberta”.
Quando li, vez primeira, em Luiz de Camões – “Alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente, repousa lá no céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste”, fiquei atento ao literal, o desespero do vate que perdera sua musa inspiradora. Surpreso ao ler uma versão para o inglês do inicio do verso – “ My gentle spirit”, no viés entendi que se tratava do rasgo neurótico. Com a morte da mulher querida, ele, Camões vive e morre. Um em dois, o “insighit” revelou que o Eu iria descansar e o eu minúsculo, seu corpo iria mergulhar na melancolia, na depressão.
Portanto, símile a “O Corvo” de Edgar Alan Poe, o passado, tecido agridoce de lembranças ficaria repetindo o “Nunca mais”, que agora, neste instante, neste momento, neste lugar, nesta estória que estamos elaborando juntos, eu “num causo”, juntando associações e lapsos, ausências e presenças, celebramos em comunhão. Comunhão esta que me reporta a meu pai que contava o “witz”,referido por Freud e que sempre tinha o sabor dum testamento.
Rindo, chorando, no estado que o espanhol define como o de “mala sangre”, ou na gargalhada provocada pela anedota banal, Machado de Assis, cessa, praticamente seu veio maior quando sua mulher, sua ouvinte morre e ele morre em seguida, mesmo porque esta é a suprema manifestação que o americano chama de “serendipty”, o estado em que o universo nos harmoniza com o fluxo enigmático do destino.
Nasrudim, o sábio tolo, do sufismo, recebe os sábios da aldeia que pedem que lhes revele a história da verdade. Nasrudim exige pagamento à população que acorre á praça para ouvi-lo. “Alguém conhece a verdade?”
A população responde em coro-Não! Nasrudim se afasta resmungando, se ninguém conhece a verdade é inútil discutir. Os lideres da aldeia reclamam e Nasrudim retorna e a população já combinou a resposta. “Alguém conhece a verdade? Sim! Responde o coro. Ora se conhecem a verdade vou me embora”. Pela terceira vez os chefes exigem sua presença e a população já preparou outra resposta. Alguém conhece a verdade? “A metade dos presentes responde que sim, a outra metade que não”. Clímax. “Nasrudim sorrindo desfecha – A metade que sabe conte para a metade que não sabe”.
O silencio do psicanalista, os percursos, a tragédia e comédia que se realiza no drama, encontra um ponto de inflexão na obra de Ítalo Svevo, “A consciência de Zeno”.
No prefácio o Doutor S. escreve – “Seja dito, porém que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo: Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou”...
O Premio Nobel de Literatura, japonês Kenzaburo Oe, escreveu um livro semi-auto-biográfico. “Jovens de um novo tempo, despertai”. Trate-se da comovedora história de um pai que tendo um filho deficiente, excepcional, inspira-se em versos do grande poeta William Blake – E tudo se inicia com esta passagem antologica – “Pai!
Pai! Aonde vais? Não andes tão depressa. Fala, pai, com teu filhinho,senão me perderei.”
Or else I shall be lost.
Esta a quintessência do que pretendi com esta exposição e que arremato, com um poema de minha autoria que foi traduzida para o polonês pelo professor Henrik Siewierski, das universidades de Cracovia e de Brasília um peregrino da cultura, publicado no livro “Magia Wygnania”. A incomunicabilidade que tenta se comunicar.
O Cavalo e Eu.
Extasiado, fiquei olhando os olhos do cavalo. Mas enxergava mais o êxtase que os seus olhos.
O cavalo, porém, me olhava e (parece) me enxergava.
E assim, ficamos tão perto nos olhando, e, no entretanto, as infinitas distâncias, sei que jamais o enxergaria.
E ele, o cavalo, quem sabe, pudesse, realmente, me enxergar, como eu mesmo, jamais me veria.
Os objetivos são comuns, da psicanálise e da literatura a compreensão do Outro, o resultado é o mesmo – o fracasso e no fracasso, o êxito – A ruptura do tabu – No Inicio era o Verbo - E no fim, na saga de “Afirma Pereira” de Tabucchí. A Palavra rompendo a representação de Zelig, O kafkeano personagem de Woody Allen.
No fecho , desfecho a intrigante pergunta que embuti no meu verso – “Por onde andará, oh Deus, minha sombra enlouquecida?”
Não é matéria de literatura, não é discurso psicanalítico.
Não a cegueira incurável do obvio sangrento mas a lucidez em Dostoievski.
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