O CANDELABRO ACESO
Marília Librandi Rocha
Rever a história. Re-iluminá-la. Lançar-lhe uma outra luz.
Quem se volta para a própria sombra? Perguntou Stefan Zweig, no conto "Leporella", em 1939. Agora, outra voz pergunta: "quem matou Stefan Zweig?", encontrado morto, com sua mulher, em 1942.Essa pergunta precisa ser feita. Ela é legítima, decente, conseqüente.
A suspeita de assassinato, encabeçada pelo psicólogo e escritor Jacob Pinheiro Goldberg e sustentada por outros pesquisadores, traz de volta o assombro, a perplexidade com a morte mal investigada, negligenciada (apesar das pompas fúnebres oficiais).
Respeitar Stefan Zweig é suspeitar de assassinato, pois seu suicídio passou para a história como o de um derrotista, e não de um bravo. Se o ato suicida foi seu gesto de adeus, ele o foi para acusar e revelar o assassinato de uma época. Foi-se como o candelabro enterrado, resistindo, e só aguardando um outro momento da história para reacender-se. Stefan nos aguarda. Ele, como disse Goldberg, deixou todas as pistas: morreu jogando xadrez e sua última novela é o jogo de xadrez. Zweig lidava com sutilezas, não com arrogância.
O próprio autor de sua biografia no Brasil, Alberto Dines, reúne dados que legitimam a suspeita de assassinato, mas ele não a ressalta, nem sequer levanta essa possibilidade. Por quê? "Pobre Zweig..." - seu biógrafo termina um livro com um epílogo com este título. "Pobre Zweig" diz ele repetidas vezes. Como "pobre Zweig"? É preciso dizer : Viva Zweig, Salve Zweig, Grande Zweig.
Frases colhidas no livro de Dines, Morte no Paraíso (1981): "(...) graças à lealdade dos amigos foram dispensadas autópsias e investigações(...)";"Ditadura, censura,paternalismo -junção de conveniências, leviandade, inconseqüência,impediram que alguns detalhes fossem buscados".(E justifica) "Não alterariam a tragédia..."; Declaração do diretor de Saúde Pública, ao autor: "Fomos proibidos de fazer a autópsia. Ordem do Palácio. Encontramos apenas um tubo de Adalina (...)sonífero leve(...)insuficiente para matar uma pessoa, quanto mais duas"; "...supunha-se nas primeiras horas que Stefan tivesse sido ameaçado ou sofrera pressões de grupos integralistas e pró-nazistas"; "foi derrotado", "teve fim inglório".
Em outro momento Dines faz um paralelo entre opostos excludentes, comparando Stefan Zweig a Hitler, nesta frase indefensável pinçada do epílogo de sua biografia: "Arribou Stefan no Brasil decidido a abster-se, aceitando instintivamente a pena decretada por Hitler de que judeus devem sumir. Erraram Adolf e Stefan, dois austríacos inquietos". Dois austríacos inquietos? Adolf e Stefan? Não há comparação possível, aproximação nenhuma pode unir o assassino à vítima.
Rubem Braga, respondendo aos ataques de covarde dirigidos a Zweig logo após a sua morte, escreveu estas palavras que corroboram nossa tese: "Os que choraram sua morte não são partidários do suicídio.Todos sentiram que a deserção deste homem valeu como lancinante protesto contra a estupidez(...),o corpo de um homem que Hitler matou". Mas seu biógrafo no Brasil, pensando louvar o escritor, diz: "o campeão do pacifismo(...)desertou"; "ousou apenas um gesto de militância-capitular"; "Zweig parou no meio do caminho, personagem de seu próprio crivo".
Inversão de perspectiva:questionar o suicídio é dever de honra para com a memória de um grande escritor. Lidemos com o paradoxo, com a ambivalência dos signos e dos gestos humanos: Stefan Zweig foi "suicidado".
Por que não houve autópsia?
Por que não foi enterrado no cemitério judeu do Rio, como queria o Rabino que veio para levar o corpo e foi impedido e ameaçado?
Por que, na Declaração final, sua esposa não é mencionada, se havia um pacto de morte entre eles?
Qual exatamente o veneno ingerido?
São algumas das muitas perguntas levantadas por Silvio Saindemberg.
Revejamos a cena.
Os dois, ele e sua mulher, são encontrados mortos na cama. Nas fotos do crime, eles aparecem em posições diversas. Como confiar nelas e saber que não houve adulteração? Na época, nada foi feito como averiguação. O motivo alegado: não incomodar os mortos. Depois foi achada uma Declaração, pacotes de livros para entregar ao editor, cartas e testamento. Ficou o que provava ineludivelmente o suicídio.Mas e o que não foi achado e se perdeu? E o que não foi contado?
A suspeita de assassinato lança um ponto de interrogação complexo e procedente com a vida, a obra e a história social e política da época. A tese de assassinato está mais próxima da noção de "A História como poetisa",texto do próprio Zweig, e também da concepção de História que propõe Walter Benjamim (outro "suicidado") e que, em suas teses sobre o conceito de história, mostra a necessidade de uma interrupção no discurso histórico, que ele qualifica de "messiânica"e que tem como fonte a razão poética.
Como disse Jeanne Marie Gagnebin em seu importante estudo História e narração em Walter Benjamim ( Perspectiva, 1994), "a tarefa do historiador "materialista" é definida essencialmente, pela produção, (de) rupturas eficazes". "Longe de apresentar de inicio um outro sistema explicativo ou uma "contra-história"(...), a reflexão do historiador deve provocar um abalo, um choque que imobiliza o desenvolvimento falsamente natural da narrativa".O que Pinheiro Goldberg fez parece ser exatamente isto: não quis propor uma "contra-história", mas provocar no desenrolar de seu discurso um abalo capaz de trazer Stefan Zweig de volta. É um espécie de ressurreição pela escrita - ato profano que engendra o retorna à vida.
Trata-se de uma "hermenêutica da suspeita", capaz de interromper a história para marcar "o lugar de uma verdade não-dita", assim como a psicanálise traz à tona o recalcado. "O pensamento de Benjamin" - continua Gagnebin - "me parece se aproximar mais da tradição profética judaica, isto é, de uma palavra corrosiva e impetuosa que subverte o ordenamento tranqüilo do discurso estabelecido; subversão tanto mais violenta quanto ela é também o lembrar de uma promessa e de uma exigência de transformação radical".
Um dos modos de "fazer irromper do passado uma significação inédita" é perceber semelhanças entre episódios distantes no tempo. Goldberg fez isso ao aproximar o caso de Zweig ao de Wladimir Herzog, ao de Iara Iavelberg, cujo suicídio alegado não passava de uma grande farsa.
Mais do que falar em tese, trata-se de uma postura diante da vida, diante da arte, diante da memória humana, escrevendo a história da humanidade que vale a pena. Ver o seu tempo, mas também fora dele, enxergando-o com vistas à Eternidade.
Por tudo isso, prefiro um epílogo que termine dizendo: Salve Zweig! Eu te saúdo.
Artigo publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais - No.58 - Abril 2000.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Difamações e infâmias.
Dr. Jacob,
Li no blog a matéria de seu advogado sobre o tal jornalista Dines.
Nunca li qualquer coisa deste sr.
Em contrapartida, li sua POESIA, e para mim basta.
Sua arte fala por si.
Certa vez, ousei dizer a um magistrado, que a humanidade precisa mais dos poetas que dos juízes.
O dito serve para o caso: a humanidade não teria chegado até aqui sem poesia, pois certamente já teríamos nos trucidado; em compensação sobre os
jornalismo e "jornalistas", não se pode dizer o mesmo.
Um solidário abraço
maria rodrigues
Li no blog a matéria de seu advogado sobre o tal jornalista Dines.
Nunca li qualquer coisa deste sr.
Em contrapartida, li sua POESIA, e para mim basta.
Sua arte fala por si.
Certa vez, ousei dizer a um magistrado, que a humanidade precisa mais dos poetas que dos juízes.
O dito serve para o caso: a humanidade não teria chegado até aqui sem poesia, pois certamente já teríamos nos trucidado; em compensação sobre os
jornalismo e "jornalistas", não se pode dizer o mesmo.
Um solidário abraço
maria rodrigues
terça-feira, 14 de julho de 2009
Estado de Minas
A poesia como fonte de vida.

Psicanalista e poeta, Jacob Pinheiro Goldberg é escritor lúcido, da família dos desgarrados.
A solidão e o estranhamento, tanto existencial quanto geográfico, permeiam a poética de Jacob Pinheiro Goldberg. Ora um choque cultural intenso, ora um ímpeto de comunicação e diálogo. “Espécie de errância interior, trajetória de vida contada e recontada em muitos poemas e textos, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg pode ser descrita como a de uma vida singular tornada estranhos poemas ou poemas-vida.” Assim, Marília Librandi Rocha abre alas para a compreensão de uma obra inquietante. E ao partir desta vertente, para organizar a antologia Poemas-Vida (Editora 7Letras), Marília Librandi Rocha articulou um livro que revela a força poética de um escritor desterritorializado.
Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo há mais de 50 anos, o poeta e psicanalista faz da escrita e da poesia a busca de uma expressão de vida. Em constante processo de criação, a fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Admirador confesso da obra de outro poeta mineiro, Murilo Mendes (1901-1975), como um outsider, Goldberg tem instigado o debate de ideias, a reflexão e, com isso, provocado muita polêmica. O “psicólogo da poética”, nas palavras de Sandra Magalhães, investe na construção poética como um desafio de revirar o passado e apontar para o futuro.
Poemas-Vida deriva de um estudo realizado sobre a obra de Jacob Pinheiro Goldberg, defendido em 2003, como tese de doutorado de Marília Librandi Rocha na Universidade de São Paulo (USP). Marília Librandi partiu da leitura de cerca de 1,2 mil textos publicados nos livros de Goldberg (compreendendo por “textos” uma produção escrita que inclui desde poemas longos, crônicas, artigos, até escritos de uma só frase ou poemas de um só verso), chegando a uma seleção que, segundo seu ponto de vista como organizadora, corresponde a algumas das principais preocupações e tendências da escrita de Goldberg. Os textos foram reunidos em sete tópicos: “Parábola e ponto de fuga”, “O nem insólito”, “Sombra da sombra”, “A carne da memória”, “Bio(necro)grafia”, “Errância” e “Melitzá. Fragmentos poéticos”.
Desde então, Goldberg assumiu os próprios textos, antes guardados em gavetas ou publicados em pequenas edições de autor, e teve sua produção escrita reconhecida por um número significativo de leitores, entre os quais Henryk Siewierski, que traduziu 18 de seus poemas para o polonês. O poeta também publicou, em 2005, o livro Rua Halfeld, Ostroviec, no qual mergulha na esquina imaginária entre a rua mais importante de Juiz de Fora e a cidade natal de seus pais na Polônia.
Vento do mundo
Na opinião de João Adolfo Hansen, professor titular de literatura brasileira na USP, a matéria da poesia de Jacob Goldberg é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. “Na sombra, à esquerda da linguagem, Goldberg escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contraefetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal.”
Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizeram de nós, afirma Hansen. E explica: “Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlândia, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados”.
A antologia Poemas-Vida é uma síntese da reflexão poética de Jacob Pinheiro Goldberg ao longo do tempo, em meio à perplexidade, ao desafio, ao caos e à superação. É um compromisso de vida e um compromisso com a escrita. Enfim, é uma outra forma de respirar.
Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador.
POEMAS-VIDA
De Jacob Pinheiro Goldberg
Editora 7 Letras, 120 páginas, R$ 29

Psicanalista e poeta, Jacob Pinheiro Goldberg é escritor lúcido, da família dos desgarrados.
A solidão e o estranhamento, tanto existencial quanto geográfico, permeiam a poética de Jacob Pinheiro Goldberg. Ora um choque cultural intenso, ora um ímpeto de comunicação e diálogo. “Espécie de errância interior, trajetória de vida contada e recontada em muitos poemas e textos, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg pode ser descrita como a de uma vida singular tornada estranhos poemas ou poemas-vida.” Assim, Marília Librandi Rocha abre alas para a compreensão de uma obra inquietante. E ao partir desta vertente, para organizar a antologia Poemas-Vida (Editora 7Letras), Marília Librandi Rocha articulou um livro que revela a força poética de um escritor desterritorializado.
Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo há mais de 50 anos, o poeta e psicanalista faz da escrita e da poesia a busca de uma expressão de vida. Em constante processo de criação, a fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Admirador confesso da obra de outro poeta mineiro, Murilo Mendes (1901-1975), como um outsider, Goldberg tem instigado o debate de ideias, a reflexão e, com isso, provocado muita polêmica. O “psicólogo da poética”, nas palavras de Sandra Magalhães, investe na construção poética como um desafio de revirar o passado e apontar para o futuro.
Poemas-Vida deriva de um estudo realizado sobre a obra de Jacob Pinheiro Goldberg, defendido em 2003, como tese de doutorado de Marília Librandi Rocha na Universidade de São Paulo (USP). Marília Librandi partiu da leitura de cerca de 1,2 mil textos publicados nos livros de Goldberg (compreendendo por “textos” uma produção escrita que inclui desde poemas longos, crônicas, artigos, até escritos de uma só frase ou poemas de um só verso), chegando a uma seleção que, segundo seu ponto de vista como organizadora, corresponde a algumas das principais preocupações e tendências da escrita de Goldberg. Os textos foram reunidos em sete tópicos: “Parábola e ponto de fuga”, “O nem insólito”, “Sombra da sombra”, “A carne da memória”, “Bio(necro)grafia”, “Errância” e “Melitzá. Fragmentos poéticos”.
Desde então, Goldberg assumiu os próprios textos, antes guardados em gavetas ou publicados em pequenas edições de autor, e teve sua produção escrita reconhecida por um número significativo de leitores, entre os quais Henryk Siewierski, que traduziu 18 de seus poemas para o polonês. O poeta também publicou, em 2005, o livro Rua Halfeld, Ostroviec, no qual mergulha na esquina imaginária entre a rua mais importante de Juiz de Fora e a cidade natal de seus pais na Polônia.
Vento do mundo
Na opinião de João Adolfo Hansen, professor titular de literatura brasileira na USP, a matéria da poesia de Jacob Goldberg é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. “Na sombra, à esquerda da linguagem, Goldberg escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contraefetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal.”
Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizeram de nós, afirma Hansen. E explica: “Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlândia, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados”.
A antologia Poemas-Vida é uma síntese da reflexão poética de Jacob Pinheiro Goldberg ao longo do tempo, em meio à perplexidade, ao desafio, ao caos e à superação. É um compromisso de vida e um compromisso com a escrita. Enfim, é uma outra forma de respirar.
Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador.
POEMAS-VIDA
De Jacob Pinheiro Goldberg
Editora 7 Letras, 120 páginas, R$ 29
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Revista O.A.B.M.G
A crise do Direito no mundo em crise
Jacob Pinheiro Goldberg*
O “gangsterismo” no mercado de capitais colocou à tona a cronicidade de situação insustentável na “kulturkampf” (guerra cultural) criada pelos fenômenos contemporâneos da simultaneidade, instantaneidade e fugacidade. Realmente, a TV e a internet, instrumentos tecnológicos extraordinários, acabaram, paradoxal e contraditoriamente, expondo a hipocrisia das instancias do Poder, a nível nacional e internacional, que usa o Direito (uma ciência da opressão em suas variáveis as mais insidiosas) para impor uma Justiça, que é o instrumento da Força, com as máscaras e cartas marcadas – polícia, exército, religião, universidade –, enfim as instituições em nome do Sagrado contra o Profano. O Direito na Avenida Paulista não é o direito em Capão Redondo. “Folha de São Paulo”, 1/2/2009: “Ganho de banco brasileiro é 11 vezes maior que o de países ricos”. “Escrava sexual brasileira lidera preço no mercado italiano (5.000 euros).”
Na transição obrigatória do caos para a esperança da lucidez, a partilha do mando político pode representar um movimento libertário.
Estender a fórmula para o Judiciário adequaria o conceito do clássico “terceiro excluído” – a hipervigilância neuronial pode não ser constitucional, mas parte do mecanismo de defesa da culpa. A culpa pela violência, a maldade, a tortura, a exclusão.
Esta é uma tentativa de compreensão das relações entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, máxime das pressões e contrapressões que se estabelecem. Tomar-se-ão elementos fornecidos pela Psicologia Social. Como entender os jogos do Poder numa dimensão coletiva sem acudir aos ensinamentos da ciência do comportamento?
No Brasil, com interrupções históricas de menor significado, temos vivido sob um presidencialismo rígido, quando não sob o regime autocrático, nas palavras de Sampaio Dória: “O Chefe de Estado ou é rei hereditário e perpétuo, cuja vontade decreta e executa as leis ou é um caudilho que, usurpando ao povo a soberania, decreta como poder pessoal as leis que executa ou manda executar. Um e outro, onipotentes e irresponsáveis. Os governados estão paralisados e sem voz, sob o jugo da não-partilha do déspota, coroado ou sem coroa”. Esta é uma realidade profundamente entranhada no psiquismo do Poder em nosso país, e que mereceu uma dissecação, em profundidade, de Oliveira Viana em Instituições Políticas Brasileiras: “Nos engenhos e fazendas, só o senhor decidia, ordenava, mesmo em questões que só interessavam à população moradora e à sua vida econômica”.
O povo não tinha a quem recorrer contra a autoridade onipotente; desarmado, não dispunha de independência de ação e de pensamento, nem do conhecimento prático de qualquer instituição democrática. Carecia de consciência jurídica, decorrente dos costumes e tradições, para determinar o comportamento dos homens na vida pública.
Realmente, nosso domínio rural, como se organizou, não continha, nem em sua estrutura, nem em sua culturologia, nenhuma instituição que o adequasse, como no domínio rural europeu, a se constituir numa escola de preparação das nossas populações rurais para as práticas democráticas, para os hábitos eletivos, para a preparação objetiva do interesse público da comunidade. Das instituições democráticas, o que havia eram as idéias gerais hauridas nas universidades e no direito público dos povos mais avançados nessa questão. A ausência de uma força própria nascida do contexto vivencial da comunidade, de um coeficiente emocional, só possível nos complexos culturais que em suas próprias especificidades a si mesmos se criaram, a ausência em suma de um direito público costumeiro do povo ou consciência jurídica pública, conforme a expressão de Bielsa, é o que teria gerado “o artificialismo de nossas instituições e de nossa formação cultural”.
Quais as implicações reais deste quadro de fundo?
A fundação do governo do pai sobre os filhos. Um Poder que tenta agilizar-se, estender sua influência, fazer-se presente. O Legislativo e o Judiciário diante de um Poder onipotente (com todos os vícios que a exacerbação patológica possa significar), o Executivo.
Essa disputa, o conflito que se trava, encontra sua arquitetura de entendimento na concepção de Freud – a revolta dos irmãos contra a tirania paterna, que, segundo Marcuse, marca o início da civilização.
Por suas características e tipicidades – um contexto que admite ideologias diversas, representadas pelos partidos políticos, discordâncias, propostas diferenciadas de encaminhamento dos conflitos sociais e dos choques de interesses –, o Legislativo assume a condição natural de “representante do povo” e, em decorrência, uma identificação maior com a realidade social na sua globalidade e com a vida psíquica individual. A dinâmica daí originária, não obstante, pode levar, às vezes, os congressistas a rupturas comportamentais infantis carregadas de tônus passional. Esta tendência a partilhar, pelo jogo das compensações, permite certo equilíbrio, evita o pior, mesmo admitindo que o poder único supremo possa dar excelentes resultados, porém, mais frequentemente leva a catástrofes, no entendimento de Alfred Sauvy. O que redunda numa permeabilidade maior com o quarto Poder e a informação de massa, que tende à valorização do debate, auscultando a opinião pública. O Judiciário é como a figuração materna, quase contemplativa.
Não é de estranhar, por isso, que hoje grande parte dos conflitos ente Legislativo e Executivo se estabeleçam sobre a área comum das relações com a imprensa, que deve ter, além dos seus tradicionais papéis de informar e ensinar, o de testemunhar, como catarse da sanidade psicológica do cidadão, desamparado diante do Estado Leviatã. Mesmo porque urge assinalar a tautologia de que não pode existir democracia sem informação, que, por sua vez, depende da postura observadora do Legislativo e do Judiciário na instância política do Estado e da imprensa, na rua. Essa ausência acarretaria a síndrome do abandono para o indivíduo que, frustrado e receoso, acaba por desenvolver sua agressividade e violência.
Por outro lado, o Executivo se considera, o mais das vezes, mesmo quando oriundo do voto popular, o “agente” de uma “vontade nacional” abstrata que ele pretende encarnar. Poder que tende ao exercício individual, numa sistemática de centração autorreferenciada, dificultando a harmonia de inter-relacionamento, pesando-lhe o respeito à imunidade do mandato parlamentar, por exemplo.
Infelizmente, a sociedade hoje vivencia seduções de processos psicológicos regressivos – a minimização das faculdades de comunicação levando a um estado mórbido e ao não-diálogo, a incapacidade para reagir e cumprir a cidadania plena, a facilidade de apelo a elementos de necrofilia –, na concepção de Felipe Ramirez: “O parlamentarismo é cortesia cívica, tolerância, discussão pública, tradição; é, pois sistema exótico em regimes de caudilhagem”. O Judiciário, acaba sendo cartorial.
A autoridade que, por efeito da própria rebelião edipiana mal elaborada, não consegue a reintrojeção de um superego construtivo, tende a medidas coercitivas, promovendo a hostilidade e a arbitrariedade.
É fundamental uma tentativa de reflexão sobre estes processos. Pela demonstração da existência do inconsciente, Freud estabeleceu o princípio do determinismo psíquico, evidenciando que a razão não é a única condutora de nossos comportamentos. O exercício e a divisão do poder precisam ser estudados também sob este enfoque, juntamente com o econômico e o social. Ou então, ficaremos sob o Sísifo, “cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim”. Finalmente, esta introspecção pode permitir a limitação do Executivo, produzindo um efeito moderador e o delineamento da atuação do Legislativo e do Judiciário com bases operacionais vinculadas ao interesse social.
Um ajuste harmônico, fundado num comportamento maduro entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário fica na dependência básica da compreensão dos mecanismos internos e externos de tensões e contratensões. Ou, em detrimento da sociedade, ficam as relações entre os três poderes condicionadas por impulsos de mútua agressividade, sem corresponder às expectativas psicológicas da comunidade, necessitada de modelos de equilíbrio na condução dos negócios públicos como parâmetros de sanidade. Cabe uma citação de Bernard Chantebout: “C’est en effet l’honneur de nos sociétés que d’avoir tenté d’enfermer la conquête et l’exercice du pouvoir dans des règles de Droit” (É com efeito uma honra para nossas sociedades terem se esforçado para consolidar a conquista e o exercício do poder segundo as regras do Direito).
Desmistificando, em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, Humpty Dumpty diz: “Quando uso uma palavra, ela quer dizer aquilo que eu escolhi que deve significar”. A psicologia da força tenta dar esta conotação para a linguagem política e legal em toda parte, em toda época.
As sociedades têm seus códigos em que definem algumas ações como criminosas e outras como aprovadas. Para as primeiras, reservam punições, classificadas como sanções e com o apoio da política organizada.
Em Minas Gerais 70% da população carcerária aguardam julgamento em prisão preventiva.
*Jacob Pinheiro Goldberg nasceu em Juiz de Fora e reside em São Paulo. É psicanalista, doutor em psicologia, advogado e escritor. Entre outros livros, publicados no Brasil e no exterior, se destacam “Psicologia em Curta-metragem”, “Psicologia da Agressividade” e “Magia Wignania”.
Jacob Pinheiro Goldberg*
O “gangsterismo” no mercado de capitais colocou à tona a cronicidade de situação insustentável na “kulturkampf” (guerra cultural) criada pelos fenômenos contemporâneos da simultaneidade, instantaneidade e fugacidade. Realmente, a TV e a internet, instrumentos tecnológicos extraordinários, acabaram, paradoxal e contraditoriamente, expondo a hipocrisia das instancias do Poder, a nível nacional e internacional, que usa o Direito (uma ciência da opressão em suas variáveis as mais insidiosas) para impor uma Justiça, que é o instrumento da Força, com as máscaras e cartas marcadas – polícia, exército, religião, universidade –, enfim as instituições em nome do Sagrado contra o Profano. O Direito na Avenida Paulista não é o direito em Capão Redondo. “Folha de São Paulo”, 1/2/2009: “Ganho de banco brasileiro é 11 vezes maior que o de países ricos”. “Escrava sexual brasileira lidera preço no mercado italiano (5.000 euros).”
Na transição obrigatória do caos para a esperança da lucidez, a partilha do mando político pode representar um movimento libertário.
Estender a fórmula para o Judiciário adequaria o conceito do clássico “terceiro excluído” – a hipervigilância neuronial pode não ser constitucional, mas parte do mecanismo de defesa da culpa. A culpa pela violência, a maldade, a tortura, a exclusão.
Esta é uma tentativa de compreensão das relações entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, máxime das pressões e contrapressões que se estabelecem. Tomar-se-ão elementos fornecidos pela Psicologia Social. Como entender os jogos do Poder numa dimensão coletiva sem acudir aos ensinamentos da ciência do comportamento?
No Brasil, com interrupções históricas de menor significado, temos vivido sob um presidencialismo rígido, quando não sob o regime autocrático, nas palavras de Sampaio Dória: “O Chefe de Estado ou é rei hereditário e perpétuo, cuja vontade decreta e executa as leis ou é um caudilho que, usurpando ao povo a soberania, decreta como poder pessoal as leis que executa ou manda executar. Um e outro, onipotentes e irresponsáveis. Os governados estão paralisados e sem voz, sob o jugo da não-partilha do déspota, coroado ou sem coroa”. Esta é uma realidade profundamente entranhada no psiquismo do Poder em nosso país, e que mereceu uma dissecação, em profundidade, de Oliveira Viana em Instituições Políticas Brasileiras: “Nos engenhos e fazendas, só o senhor decidia, ordenava, mesmo em questões que só interessavam à população moradora e à sua vida econômica”.
O povo não tinha a quem recorrer contra a autoridade onipotente; desarmado, não dispunha de independência de ação e de pensamento, nem do conhecimento prático de qualquer instituição democrática. Carecia de consciência jurídica, decorrente dos costumes e tradições, para determinar o comportamento dos homens na vida pública.
Realmente, nosso domínio rural, como se organizou, não continha, nem em sua estrutura, nem em sua culturologia, nenhuma instituição que o adequasse, como no domínio rural europeu, a se constituir numa escola de preparação das nossas populações rurais para as práticas democráticas, para os hábitos eletivos, para a preparação objetiva do interesse público da comunidade. Das instituições democráticas, o que havia eram as idéias gerais hauridas nas universidades e no direito público dos povos mais avançados nessa questão. A ausência de uma força própria nascida do contexto vivencial da comunidade, de um coeficiente emocional, só possível nos complexos culturais que em suas próprias especificidades a si mesmos se criaram, a ausência em suma de um direito público costumeiro do povo ou consciência jurídica pública, conforme a expressão de Bielsa, é o que teria gerado “o artificialismo de nossas instituições e de nossa formação cultural”.
Quais as implicações reais deste quadro de fundo?
A fundação do governo do pai sobre os filhos. Um Poder que tenta agilizar-se, estender sua influência, fazer-se presente. O Legislativo e o Judiciário diante de um Poder onipotente (com todos os vícios que a exacerbação patológica possa significar), o Executivo.
Essa disputa, o conflito que se trava, encontra sua arquitetura de entendimento na concepção de Freud – a revolta dos irmãos contra a tirania paterna, que, segundo Marcuse, marca o início da civilização.
Por suas características e tipicidades – um contexto que admite ideologias diversas, representadas pelos partidos políticos, discordâncias, propostas diferenciadas de encaminhamento dos conflitos sociais e dos choques de interesses –, o Legislativo assume a condição natural de “representante do povo” e, em decorrência, uma identificação maior com a realidade social na sua globalidade e com a vida psíquica individual. A dinâmica daí originária, não obstante, pode levar, às vezes, os congressistas a rupturas comportamentais infantis carregadas de tônus passional. Esta tendência a partilhar, pelo jogo das compensações, permite certo equilíbrio, evita o pior, mesmo admitindo que o poder único supremo possa dar excelentes resultados, porém, mais frequentemente leva a catástrofes, no entendimento de Alfred Sauvy. O que redunda numa permeabilidade maior com o quarto Poder e a informação de massa, que tende à valorização do debate, auscultando a opinião pública. O Judiciário é como a figuração materna, quase contemplativa.
Não é de estranhar, por isso, que hoje grande parte dos conflitos ente Legislativo e Executivo se estabeleçam sobre a área comum das relações com a imprensa, que deve ter, além dos seus tradicionais papéis de informar e ensinar, o de testemunhar, como catarse da sanidade psicológica do cidadão, desamparado diante do Estado Leviatã. Mesmo porque urge assinalar a tautologia de que não pode existir democracia sem informação, que, por sua vez, depende da postura observadora do Legislativo e do Judiciário na instância política do Estado e da imprensa, na rua. Essa ausência acarretaria a síndrome do abandono para o indivíduo que, frustrado e receoso, acaba por desenvolver sua agressividade e violência.
Por outro lado, o Executivo se considera, o mais das vezes, mesmo quando oriundo do voto popular, o “agente” de uma “vontade nacional” abstrata que ele pretende encarnar. Poder que tende ao exercício individual, numa sistemática de centração autorreferenciada, dificultando a harmonia de inter-relacionamento, pesando-lhe o respeito à imunidade do mandato parlamentar, por exemplo.
Infelizmente, a sociedade hoje vivencia seduções de processos psicológicos regressivos – a minimização das faculdades de comunicação levando a um estado mórbido e ao não-diálogo, a incapacidade para reagir e cumprir a cidadania plena, a facilidade de apelo a elementos de necrofilia –, na concepção de Felipe Ramirez: “O parlamentarismo é cortesia cívica, tolerância, discussão pública, tradição; é, pois sistema exótico em regimes de caudilhagem”. O Judiciário, acaba sendo cartorial.
A autoridade que, por efeito da própria rebelião edipiana mal elaborada, não consegue a reintrojeção de um superego construtivo, tende a medidas coercitivas, promovendo a hostilidade e a arbitrariedade.
É fundamental uma tentativa de reflexão sobre estes processos. Pela demonstração da existência do inconsciente, Freud estabeleceu o princípio do determinismo psíquico, evidenciando que a razão não é a única condutora de nossos comportamentos. O exercício e a divisão do poder precisam ser estudados também sob este enfoque, juntamente com o econômico e o social. Ou então, ficaremos sob o Sísifo, “cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim”. Finalmente, esta introspecção pode permitir a limitação do Executivo, produzindo um efeito moderador e o delineamento da atuação do Legislativo e do Judiciário com bases operacionais vinculadas ao interesse social.
Um ajuste harmônico, fundado num comportamento maduro entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário fica na dependência básica da compreensão dos mecanismos internos e externos de tensões e contratensões. Ou, em detrimento da sociedade, ficam as relações entre os três poderes condicionadas por impulsos de mútua agressividade, sem corresponder às expectativas psicológicas da comunidade, necessitada de modelos de equilíbrio na condução dos negócios públicos como parâmetros de sanidade. Cabe uma citação de Bernard Chantebout: “C’est en effet l’honneur de nos sociétés que d’avoir tenté d’enfermer la conquête et l’exercice du pouvoir dans des règles de Droit” (É com efeito uma honra para nossas sociedades terem se esforçado para consolidar a conquista e o exercício do poder segundo as regras do Direito).
Desmistificando, em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, Humpty Dumpty diz: “Quando uso uma palavra, ela quer dizer aquilo que eu escolhi que deve significar”. A psicologia da força tenta dar esta conotação para a linguagem política e legal em toda parte, em toda época.
As sociedades têm seus códigos em que definem algumas ações como criminosas e outras como aprovadas. Para as primeiras, reservam punições, classificadas como sanções e com o apoio da política organizada.
Em Minas Gerais 70% da população carcerária aguardam julgamento em prisão preventiva.
*Jacob Pinheiro Goldberg nasceu em Juiz de Fora e reside em São Paulo. É psicanalista, doutor em psicologia, advogado e escritor. Entre outros livros, publicados no Brasil e no exterior, se destacam “Psicologia em Curta-metragem”, “Psicologia da Agressividade” e “Magia Wignania”.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Entrevista Universidade Stanford (E.U.A)
Entrevista da Profª Marília Librandi Rocha, da Universidade Stanford (E.U.A), autora da antologia “Poemas Vida” de Jacob Pinheiro Goldberg, com apresentação do profº João Adolfo Hansen (U.S.P).
Marília Librandi Rocha, apresentou a tese de doutoramento... “Parábola e Ponto de Fuga: a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg”, na U.S.P, obtendo nota 10 com distinção e louvor.
ACESSE O LINK:
http://www.stanford.edu/dept/fren-ital/opinions/
Marília Librandi Rocha, apresentou a tese de doutoramento... “Parábola e Ponto de Fuga: a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg”, na U.S.P, obtendo nota 10 com distinção e louvor.
ACESSE O LINK:
http://www.stanford.edu/dept/fren-ital/opinions/
sexta-feira, 17 de abril de 2009
ESTADO DE MINAS
PENSAR -
Sábado, 04 de abril de 2009
A poesia como fonte de vida
A solidão e o estranhamento, tanto existencial quanto geográfico, permeiam a poética de Jacob Pinheiro Goldberg. Ora um choque cultural intenso, ora um ímpeto de comunicação e diálogo. “Espécie de errância interior, trajetória de vida contada e recontada em muitos poemas e textos, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg pode ser descrita como a de uma vida singular tornada estranhos poemas ou poemas-vida.” Assim, Marília Librandi Rocha abre alas para a compreensão de uma obra inquietante. E ao partir desta vertente, para organizar a antologia Poemas-Vida (Editora 7Letras), Marília Librandi Rocha articulou um livro que revela a força poética de um escritor desterritorializado.
Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo há mais de 50 anos, o poeta e psicanalista faz da escrita e da poesia a busca de uma expressão de vida. Em constante processo de criação, a fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Admirador confesso da obra de outro poeta mineiro, Murilo Mendes (1901-1975), como um outsider, Goldberg tem instigado o debate de ideias, a reflexão e, com isso, provocado muita polêmica. O “psicólogo da poética”, nas palavras de Sandra Magalhães, investe na construção poética como um desafio de revirar o passado e apontar para o futuro.
Poemas-Vida deriva de um estudo realizado sobre a obra de Jacob Pinheiro Goldberg, defendido em 2003, como tese de doutorado de Marília Librandi Rocha na Universidade de São Paulo (USP). Marília Librandi partiu da leitura de cerca de 1,2 mil textos publicados nos livros de Goldberg (compreendendo por “textos” uma produção escrita que inclui desde poemas longos, crônicas, artigos, até escritos de uma só frase ou poemas de um só verso), chegando a uma seleção que, segundo seu ponto de vista como organizadora, corresponde a algumas das principais preocupações e tendências da escrita de Goldberg. Os textos foram reunidos em sete tópicos: “Parábola e ponto de fuga”, “O nem insólito”, “Sombra da sombra”, “A carne da memória”, “Bio(necro)grafia”, “Errância” e “Melitzá. Fragmentos poéticos”.
Desde então, Goldberg assumiu os próprios textos, antes guardados em gavetas ou publicados em pequenas edições de autor, e teve sua produção escrita reconhecida por um número significativo de leitores, entre os quais Henryk Siewierski, que traduziu 18 de seus poemas para o polonês. O poeta também publicou, em 2005, o livro Rua Halfeld, Ostroviec, no qual mergulha na esquina imaginária entre a rua mais importante de Juiz de Fora e a cidade natal de seus pais na Polônia.
Vento do mundo
Na opinião de João Adolfo Hansen, professor titular de literatura brasileira na USP, a matéria da poesia de Jacob Goldberg é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. “Na sombra, à esquerda da linguagem, Goldberg escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contraefetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal.”
Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizeram de nós, afirma Hansen. E explica: “Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlândia, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados”.
A antologia Poemas-Vida é uma síntese da reflexão poética de Jacob Pinheiro Goldberg ao longo do tempo, em meio à perplexidade, ao desafio, ao caos e à superação. É um compromisso de vida e um compromisso com a escrita. Enfim, é uma outra forma de respirar.
Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador.
POEMAS-VIDA
De Jacob Pinheiro Goldberg
Editora 7 Letras, 120 páginas, R$ 29
Sábado, 04 de abril de 2009
A poesia como fonte de vida
A solidão e o estranhamento, tanto existencial quanto geográfico, permeiam a poética de Jacob Pinheiro Goldberg. Ora um choque cultural intenso, ora um ímpeto de comunicação e diálogo. “Espécie de errância interior, trajetória de vida contada e recontada em muitos poemas e textos, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg pode ser descrita como a de uma vida singular tornada estranhos poemas ou poemas-vida.” Assim, Marília Librandi Rocha abre alas para a compreensão de uma obra inquietante. E ao partir desta vertente, para organizar a antologia Poemas-Vida (Editora 7Letras), Marília Librandi Rocha articulou um livro que revela a força poética de um escritor desterritorializado.
Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo há mais de 50 anos, o poeta e psicanalista faz da escrita e da poesia a busca de uma expressão de vida. Em constante processo de criação, a fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Admirador confesso da obra de outro poeta mineiro, Murilo Mendes (1901-1975), como um outsider, Goldberg tem instigado o debate de ideias, a reflexão e, com isso, provocado muita polêmica. O “psicólogo da poética”, nas palavras de Sandra Magalhães, investe na construção poética como um desafio de revirar o passado e apontar para o futuro.
Poemas-Vida deriva de um estudo realizado sobre a obra de Jacob Pinheiro Goldberg, defendido em 2003, como tese de doutorado de Marília Librandi Rocha na Universidade de São Paulo (USP). Marília Librandi partiu da leitura de cerca de 1,2 mil textos publicados nos livros de Goldberg (compreendendo por “textos” uma produção escrita que inclui desde poemas longos, crônicas, artigos, até escritos de uma só frase ou poemas de um só verso), chegando a uma seleção que, segundo seu ponto de vista como organizadora, corresponde a algumas das principais preocupações e tendências da escrita de Goldberg. Os textos foram reunidos em sete tópicos: “Parábola e ponto de fuga”, “O nem insólito”, “Sombra da sombra”, “A carne da memória”, “Bio(necro)grafia”, “Errância” e “Melitzá. Fragmentos poéticos”.
Desde então, Goldberg assumiu os próprios textos, antes guardados em gavetas ou publicados em pequenas edições de autor, e teve sua produção escrita reconhecida por um número significativo de leitores, entre os quais Henryk Siewierski, que traduziu 18 de seus poemas para o polonês. O poeta também publicou, em 2005, o livro Rua Halfeld, Ostroviec, no qual mergulha na esquina imaginária entre a rua mais importante de Juiz de Fora e a cidade natal de seus pais na Polônia.
Vento do mundo
Na opinião de João Adolfo Hansen, professor titular de literatura brasileira na USP, a matéria da poesia de Jacob Goldberg é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. “Na sombra, à esquerda da linguagem, Goldberg escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contraefetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal.”
Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizeram de nós, afirma Hansen. E explica: “Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlândia, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados”.
A antologia Poemas-Vida é uma síntese da reflexão poética de Jacob Pinheiro Goldberg ao longo do tempo, em meio à perplexidade, ao desafio, ao caos e à superação. É um compromisso de vida e um compromisso com a escrita. Enfim, é uma outra forma de respirar.
Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador.
POEMAS-VIDA
De Jacob Pinheiro Goldberg
Editora 7 Letras, 120 páginas, R$ 29
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