Num debate realizado pela “Folha de São Paulo”, na série Diálogos Impertinentes, defendi a tese, politicamente incorreta de que só através da alienação, o individuo se desaliena das amarras aparentes do Real. Penso e falo em cut-up, melitzá. Á quem interessa a linearidade, pergunta Bergman.
É no terreno etéreo e inespacial da subjetividade que a psicanálise e a literatura se entrecruzam numa relação incestuosa e adúltera, eis que rompem regras e fingem rituais.
O mais importante psicanalista de todos os tempos, o que encarou no sentido de enxergar e de encarecer a conduta humana foi Marcel Proust entre os passados possíveis e impossíveis, portanto imperdíveis.
O mais importante romancista de todos os tempos é Zygmunt Freud que criou uma narrativa universal, em cima de uma fábula grega que se dasabrocha e fenece na vida de cada um.
O paciente que se dispõe a desenrolar sua narrativa, conto, romance, poesia é o co-protagonista e co-autor, junto com o psicanalista de um raconto que lembrou Jorge Luiz Borges precisa ser traduzido como “Mil noites e mais uma” e não “As mil e uma noites.”
Scherazade descobre como não se morre (e o paciente como não se adoenta ou como se cura). O sultão não quer um mero “affaire”, os corpos que se unem por uma noite e no orgasmo (a pequena morte da medicina clássica) que finda.
O sultão está em busca de continuação, do final, enfim, do SENTIDO das vidas que se entrelaçam, projeção de sua própria vida, correndo da necrofobía, atrás da eternidade.
O efêmero é a síndrome do pânico que desencadeia sua necrofilia, a vontade de matar e no objeto cadavérico o atestado de sua desimportancia.
Ágape e Eros, demandam uma voz que conta e encanta, o encantador de serpente e um ouvido que ouve e interpreta, o olho que enxerga precisa se distrair ou ler na biblioteca universal, ainda na metáfora borgeana.
Cedo, muito cedo, no curso primário, em Juiz de Fora, aonde nasci, no colégio metodista, Instituto Granbery, vivi a contradição cultural e religiosa de filho deimigrantes judeus poloneses e aluno de assembléia teológica de exaltação a Jesus. Condimentado na vitima de “bullyng”, pelas orelhas de abano e o apelido conseqüente, “Dumbo”. Ou o judeu que crucificou Cristo. Eu, hein?
Não bastava.O pré-nome Pinheiro, dado em homenagem a meu tio Pinkas criava suspeita entre os judeus, Será um “misto”? Embora neto materno do Rabino Aron Elwing, ficava a dúvida paranóica.
E as aflições e esperanças, depressão e euforia daqueles anos em que o Brasil vivia a ERA DA INOCENCIA e que hoje desemboca na ERA DO CINISMO.
Escrevi num dos meus primeiros livros – quem nasceu no meio daquelas montanhas, sem o horizonte do mar, e nestas circunstancias tem a alternativas da poesia ou da demência.
Dom Quixote é o vestibular da modernidade desconstrutiva, na literatura em que Cervantes antecipa a “weltschmerz”, agonia em que Freud desenha o painel do “humano, demasiadamente, humano”, de Goethe.
E se faz a citação que lembra o verso surreal em Dante- “chove na mais alta fantasia”. É no Talmud, este repositório de uma sabedoria não linear que se funda esta arte-ciencia que colore o século XX e há de responder ao século XXI, e não a Economia, Sociologia ou qualquer das chamadas artimanhas que o demônio mentiroso do concreto propõe: “um sonho não interpretado é como uma carta não aberta”.
Quando li, vez primeira, em Luiz de Camões – “Alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente, repousa lá no céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste”, fiquei atento ao literal, o desespero do vate que perdera sua musa inspiradora. Surpreso ao ler uma versão para o inglês do inicio do verso – “ My gentle spirit”, no viés entendi que se tratava do rasgo neurótico. Com a morte da mulher querida, ele, Camões vive e morre. Um em dois, o “insighit” revelou que o Eu iria descansar e o eu minúsculo, seu corpo iria mergulhar na melancolia, na depressão.
Portanto, símile a “O Corvo” de Edgar Alan Poe, o passado, tecido agridoce de lembranças ficaria repetindo o “Nunca mais”, que agora, neste instante, neste momento, neste lugar, nesta estória que estamos elaborando juntos, eu “num causo”, juntando associações e lapsos, ausências e presenças, celebramos em comunhão. Comunhão esta que me reporta a meu pai que contava o “witz”,referido por Freud e que sempre tinha o sabor dum testamento.
Rindo, chorando, no estado que o espanhol define como o de “mala sangre”, ou na gargalhada provocada pela anedota banal, Machado de Assis, cessa, praticamente seu veio maior quando sua mulher, sua ouvinte morre e ele morre em seguida, mesmo porque esta é a suprema manifestação que o americano chama de “serendipty”, o estado em que o universo nos harmoniza com o fluxo enigmático do destino.
Nasrudim, o sábio tolo, do sufismo, recebe os sábios da aldeia que pedem que lhes revele a história da verdade. Nasrudim exige pagamento à população que acorre á praça para ouvi-lo. “Alguém conhece a verdade?”
A população responde em coro-Não! Nasrudim se afasta resmungando, se ninguém conhece a verdade é inútil discutir. Os lideres da aldeia reclamam e Nasrudim retorna e a população já combinou a resposta. “Alguém conhece a verdade? Sim! Responde o coro. Ora se conhecem a verdade vou me embora”. Pela terceira vez os chefes exigem sua presença e a população já preparou outra resposta. Alguém conhece a verdade? “A metade dos presentes responde que sim, a outra metade que não”. Clímax. “Nasrudim sorrindo desfecha – A metade que sabe conte para a metade que não sabe”.
O silencio do psicanalista, os percursos, a tragédia e comédia que se realiza no drama, encontra um ponto de inflexão na obra de Ítalo Svevo, “A consciência de Zeno”.
No prefácio o Doutor S. escreve – “Seja dito, porém que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo: Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou”...
O Premio Nobel de Literatura, japonês Kenzaburo Oe, escreveu um livro semi-auto-biográfico. “Jovens de um novo tempo, despertai”. Trate-se da comovedora história de um pai que tendo um filho deficiente, excepcional, inspira-se em versos do grande poeta William Blake – E tudo se inicia com esta passagem antologica – “Pai!
Pai! Aonde vais? Não andes tão depressa. Fala, pai, com teu filhinho,senão me perderei.”
Or else I shall be lost.
Esta a quintessência do que pretendi com esta exposição e que arremato, com um poema de minha autoria que foi traduzida para o polonês pelo professor Henrik Siewierski, das universidades de Cracovia e de Brasília um peregrino da cultura, publicado no livro “Magia Wygnania”. A incomunicabilidade que tenta se comunicar.
O Cavalo e Eu.
Extasiado, fiquei olhando os olhos do cavalo. Mas enxergava mais o êxtase que os seus olhos.
O cavalo, porém, me olhava e (parece) me enxergava.
E assim, ficamos tão perto nos olhando, e, no entretanto, as infinitas distâncias, sei que jamais o enxergaria.
E ele, o cavalo, quem sabe, pudesse, realmente, me enxergar, como eu mesmo, jamais me veria.
Os objetivos são comuns, da psicanálise e da literatura a compreensão do Outro, o resultado é o mesmo – o fracasso e no fracasso, o êxito – A ruptura do tabu – No Inicio era o Verbo - E no fim, na saga de “Afirma Pereira” de Tabucchí. A Palavra rompendo a representação de Zelig, O kafkeano personagem de Woody Allen.
No fecho , desfecho a intrigante pergunta que embuti no meu verso – “Por onde andará, oh Deus, minha sombra enlouquecida?”
Não é matéria de literatura, não é discurso psicanalítico.
Não a cegueira incurável do obvio sangrento mas a lucidez em Dostoievski.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Observatório da Imprensa - contém um ingrediente midiático que conviria destacar: é quase todo dirigido contra um desconhecido dr. Jacob Pinheiro.
Resposta a Alberto Dines também conhecido como "boquinha" -
1 - Desconhecido? A “Folha” publicou meu artigo (a pedido de sua direção) na pag.3.
A revista “Bravo” contestou com texto e fotos em várias paginas. O próprio “Observatório” transcreveu (sem minha autorização e sem pagar...). O artigo teve ampla repercussão nacional e internacional, o que para desgosto do alberto sempre acontece.
O snr. Dines (em Ydish – Alte Ligner, o mentiroso) finge que não me conhece. Talvez, talvez. Duvido e faço pouco. Me conhece, ele e seu bando. Somos de tribos opostas.
Eu o conheço muito bem – “O mais importante jornalista brasileiro” segundo ele mesmo. Sem duvida o mais bem financiado – produção financiada por bancos e alcatéias.
2 – Olavo de Carvalho já deu uma lição de dignidade ao Dines que pediu desculpas pela sua língua de trapo.
3 – Os jornais, inclusive o seu “Observatório” é que publicam meus trabalhos, por meu conteúdo de honestidade, interesse social e altitude intelectual.
4 – Com 13 anos de idade escrevi para os jornais de minha cidade natal, Juiz de Fora, Minha carteira da Associação Mineira de Imprensa é de 62 anos atrás!
5 – O “suicídio” de Stefan Zweig foi explorado, comercialmente, pelo snr. Dines, cujo pai Israel junto com a policia enterraram o maior escritor do seu tempo. Como dói uma verdade que nem a sua psicanálise curou (confissão de Alberto em entrevista).
6 – Minha tese sobre Zweig foi abonada pela professora doutora Anita Nowinski, da U.S.P – insultada, grosseiramente pelo pobre diabo Alberto cuja elegância fica ao nível do charco. Que o diga Boris Casoy e centenas de vitimas de sua vulgaridade.
7 – Não sou líder de nenhuma comunidade ou gueto, mas sou minha integridade e trabalho, humilde e sincero, ao contrário do que suas tietes escrotas escrevem em textos de calunias.
8 – Não sou censor do cristianismo como pretende eleger-me. Leia minha vasta obra, Alberto – especialista do nada e constatará o espírito humanístico ( Vide “Jesus, o judeu”).
9 – O joguinho de palavras Goldberg / Iceberg é expressivo de sua mente – doentia e sórdida.
10 – Nenhuma palavra de Dines a meu respeito é verdadeira. Amontoado de inveja, cinismo e ódio por seu complexo de inferioridade.
1 - Desconhecido? A “Folha” publicou meu artigo (a pedido de sua direção) na pag.3.
A revista “Bravo” contestou com texto e fotos em várias paginas. O próprio “Observatório” transcreveu (sem minha autorização e sem pagar...). O artigo teve ampla repercussão nacional e internacional, o que para desgosto do alberto sempre acontece.
O snr. Dines (em Ydish – Alte Ligner, o mentiroso) finge que não me conhece. Talvez, talvez. Duvido e faço pouco. Me conhece, ele e seu bando. Somos de tribos opostas.
Eu o conheço muito bem – “O mais importante jornalista brasileiro” segundo ele mesmo. Sem duvida o mais bem financiado – produção financiada por bancos e alcatéias.
2 – Olavo de Carvalho já deu uma lição de dignidade ao Dines que pediu desculpas pela sua língua de trapo.
3 – Os jornais, inclusive o seu “Observatório” é que publicam meus trabalhos, por meu conteúdo de honestidade, interesse social e altitude intelectual.
4 – Com 13 anos de idade escrevi para os jornais de minha cidade natal, Juiz de Fora, Minha carteira da Associação Mineira de Imprensa é de 62 anos atrás!
5 – O “suicídio” de Stefan Zweig foi explorado, comercialmente, pelo snr. Dines, cujo pai Israel junto com a policia enterraram o maior escritor do seu tempo. Como dói uma verdade que nem a sua psicanálise curou (confissão de Alberto em entrevista).
6 – Minha tese sobre Zweig foi abonada pela professora doutora Anita Nowinski, da U.S.P – insultada, grosseiramente pelo pobre diabo Alberto cuja elegância fica ao nível do charco. Que o diga Boris Casoy e centenas de vitimas de sua vulgaridade.
7 – Não sou líder de nenhuma comunidade ou gueto, mas sou minha integridade e trabalho, humilde e sincero, ao contrário do que suas tietes escrotas escrevem em textos de calunias.
8 – Não sou censor do cristianismo como pretende eleger-me. Leia minha vasta obra, Alberto – especialista do nada e constatará o espírito humanístico ( Vide “Jesus, o judeu”).
9 – O joguinho de palavras Goldberg / Iceberg é expressivo de sua mente – doentia e sórdida.
10 – Nenhuma palavra de Dines a meu respeito é verdadeira. Amontoado de inveja, cinismo e ódio por seu complexo de inferioridade.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
João Adolfo Hansen comenta Jacob Pinheiro Goldberg
Sobre a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg o doutor JOÃO ADOLFO HANSEN, professor titular de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, escreveu: “A primeira vez que vi Jacob Pinheiro Goldberg, ele estava na TV, falando do sadismo da burguesia brasileira que goza fazendo o povo sofrer. Desde então, passei a gostar muito dele. Depois, fiquei sabendo pela minha amiga Marília Librandi, que escreve a introdução exata e delicada deste livro, que Jacob nasceu em Juiz de Fora. Era Pinchas, judeu de origem polonesa, mas desabitou o nome, virou Pinheiro. O Brasil é mesmo impossível. Acho que cresceu como qualquer um de nós, sobrevivendo às contingências da vida daqui. Parentes dele foram assassinados em campos nazistas. Estudou Direito, para que descobrir que a Lei submete e que o Espírito liberta. Ateu, passou à psicanálise freudiana. A matéria da sua poesia é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não-estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. Na sombra, à esquerda da linguagem, ele escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contra-efetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal. Você, que agora lê esta orelha, talvez pense que essa forma de expressão da dor é própria da experiência histórica do povo judeu. E pensará bem, com razão. Mas só em parte. Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizerem de nós. Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da Lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlância, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados. A liberdade de Jacob é livre, ou seja, generosa, e faz seus poema espaçosos para recolherem compassivamente os cacos da história universal de um ‘nós’ despedaçado. São fortes, os poemas de Jacob, duros, intensos, sem nenhum consolo, comoventes. Podem até fazer desesperados pensar que, se ainda há homens como ele, há esperança para todos. Daqui desta orelha eu mando meu abraço pra ele.”, in “Poemas-vida, antologia de Jacob Pinheiro Goldberg”, organizado e apresentado por MARÍLIA LIBRANDI ROCHA, professora de Teoria Literária no Departamento de Estudos Lingüísticos e Literais da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo e, a partir de dezembro de 2008, professora da Stanford University, CA, EUA (Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2008).
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
VIVER NÃO É PRECISO, NAVEGAR É PRECISO.
No artigo “Jovens e velhos” (9/12 – “Folha”) João Pereira Coutinho prossegue na defesa de sua tese da vida humana como escala cronológica. Só vale até os 74 anos de idade fazendo exceções, na qual me inclui. A “Folha” reporta no mesmo dia o nascimento de uma filha de indiana de 70 anos.
Agressivo e inteligente exige de mim (pobre monoglota) um esforço digno dum Helio Gracie, 95 indo para o tatame. Que assim seja.
No prefácio que escrevi para a “História da Morte no Ocidente” de Philipe Áries deixei implícito que a tanatofobia é um traço de nossa cultura, o que expliquei em “A clave da Morte”, o que só pode ser aliviado com o conceito transitivo que nos remete ao eterno.
É uma longa viagem. Animal bípede, vivente no solo da família dos primatas. Aprenderá a falar e fabricar utensílios reconhecíveis. No fim da primeira etapa, aprendeu a usar o fogo, surgiu solitário, na sua classe de animais. Era biologia.
Na segunda etapa, aprendeu a cozinhar alimentos e fazer roupas quentes. Criou o arco e a flecha e domesticou o cão para a caçada. Melhorou sua habilidade.
Na terceira etapa, cultivou plantas, celebrou a cerâmica, fez carroças, fundição do cobre, escreveu, carvão, máquinas a vapor, comércio, imprensa, dinheiro, canhão. Desgastou o planeta e a natureza sofreu. Uma história de mais de um milhão de anos.
Aonde conduzirá esta aventura a que começou com os longínquos antepassados? Saberemos combinar os dons e adivinhar? Ou, como macacos nas árvores, nossa visão será a de meros sobreviventes, os que não puderam dar o salto que liberta da angústia e do medo? Enfim, relativizar a morte. É uma longa viagem, que apenas começou.
Acompanhando o estilo personalizado de Coutinho, um contador de “causos” vou arrolando.
Em palestra que proferi no Curso de pós-graduação em psico-oncologia, no Hospital do Câncer relatei –
Valentim Rasputin nasceu em 1937, num povoado chamado Ushti Udá, nas margens do Rio Tangará, na Sibéria. Ele tem um conto chamado “A Velha”. Uma mulher encarquilhada e muito velha ficava deitada num catre permanentemente gemendo. Ela tinha sido xamã na juventude, que é um feiticeiro, que cura com ervas, crendices, encantos e feitiços, mas o xamanismo foi proibido na União Soviética, perseguido e punido. A velha diz à filha: “Minha filha, eu estou morrendo”. E a filha diz: “Você está com medo?” A velha: “Não estou com medo, estou preocupada. Todo o meu saber, tudo o que eu conheço, quando eu morrer, não vou ter para quem passar, são centenas de anos de conhecimento que vão morrer comigo, e eu queria passar pra você.” A filha diz: “Você, além de doente, está louca. Isso são crendices e superstições estúpidas e absurdas e a mim não interessa ser feiticeira, xamã”. A velha começa a grunhir de dor. A neta entra e pergunta: – “Por que ela está gemendo?” – A filha: – “Por que ela pensa que é uma xamã”. A velha chama a neta e diz: “Eu quero transmitir o saber para você!” E a menininha sai correndo de medo. E a velha morre. No dia do enterro, o prefeito da cidade e os vizinhos fazem discursos em homenagem à velha, o prefeito diz: “Ela era uma grande cidadã, ela participava sempre das atividades cívicas da nossa cidade”. Uma vizinha diz: “Ela era uma grande vizinha, sempre amiga.” Outra diz: “Eu a conheci quando jovem, ela era muito bonita”. E assim vai. A cerimônia termina. No dia seguinte, a menina sai clandestinamente de casa, vai ao cemitério, chega perto da sepultura da avó e repete essas frases: “Ela era uma grande cidadã. Ela era uma grande vizinha, sempre amiga. Ela era muito bonita.” Ela olha pra pedra e diz. “Está vendo vó, você não morreu, eles enterraram uma outra mulher.”
Uma sociedade que conhece a linha divisória exclui sempre. Exclui o negro, o homossexual, o obeso, o excepcional (que Coutinho chama de débil mental), um morador de rua, o fumante e o velho, um gênero de feiúra etária.
“Last but not least” a professora Vanessa Barreto da Universidade Estadual de Montes Claros leu o artigo da revista “The Lancet” em que Coutinho alega ter se baseado para elaborar sua esdrúxula concepção de vida e morte: http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(08)61594-9 e chego a conclusão de que João não sabe interpretar a língua inglesa. Analisando –
"A revista britânica 'The Lancet' resolveu fazer um estudo sobre a qualidade de vida a partir dos 50 anos." (J.P. Coutinho) O artigo propôs-se a estudar as desigualdades de anos de vida saudável em 25 países da União Européia em 2005.
"Porque viver mais não significa viver melhor." (J. P. Coutinho) (?)
Viver mais também não significa viver pior. O artigo da "The Lancet" relata que embora a expectativa de vida na UE esteja em franco crescimento, não se sabe se tais anos extras são vividos com boa saúde.
"A partir dos 50 anos, que esperança boa de vida têm os habitantes da União Européia? (J.P. Coutinho).
Essa indagação não está presente no artigo.
Foram calculados através do método Sullivan, expectativas de vida e de anos de vida saudável a partir dos 50 levando-se em consideração o sexo e o país.
Descobriu-se que os anos de vida saudável bem como a expectativa de vida variam largamente nos 25 países envolvidos na pesquisa, e estão relacionados a fatores que vão desde renda total familiar, passando por gastos com seguros de saúde, desemprego (influenciando negativamente) até aprendizagem por toda a vida (positivamente).
A pesquisa conclui, diferentemente do que tenta mostrar o artigo do Coutinho, que existem desigualdades substanciais em HLYs (anos de vida saudável) nos países da UE e não, que não há vida após os 50.
O estudo sugere ainda o que preconizo: sem melhoras ou políticas que promovam o bem-estar aliado à longevidade, a participação dessa população na força de trabalho fica difícil nos 25 países pesquisados.
Devo registrar que a divergência entre mim e Coutinho é insanável. Acredito na vida como sentido e não como processo em finitude.
Jacob Pinheiro Goldberg
(Psicanalista, autor de “Don’t let me die”, S.O.S Woman, E.U.A e Instituto Emilio Ribas, “Clave da Morte” e “Cultura da Agressividade”.)
Agressivo e inteligente exige de mim (pobre monoglota) um esforço digno dum Helio Gracie, 95 indo para o tatame. Que assim seja.
No prefácio que escrevi para a “História da Morte no Ocidente” de Philipe Áries deixei implícito que a tanatofobia é um traço de nossa cultura, o que expliquei em “A clave da Morte”, o que só pode ser aliviado com o conceito transitivo que nos remete ao eterno.
É uma longa viagem. Animal bípede, vivente no solo da família dos primatas. Aprenderá a falar e fabricar utensílios reconhecíveis. No fim da primeira etapa, aprendeu a usar o fogo, surgiu solitário, na sua classe de animais. Era biologia.
Na segunda etapa, aprendeu a cozinhar alimentos e fazer roupas quentes. Criou o arco e a flecha e domesticou o cão para a caçada. Melhorou sua habilidade.
Na terceira etapa, cultivou plantas, celebrou a cerâmica, fez carroças, fundição do cobre, escreveu, carvão, máquinas a vapor, comércio, imprensa, dinheiro, canhão. Desgastou o planeta e a natureza sofreu. Uma história de mais de um milhão de anos.
Aonde conduzirá esta aventura a que começou com os longínquos antepassados? Saberemos combinar os dons e adivinhar? Ou, como macacos nas árvores, nossa visão será a de meros sobreviventes, os que não puderam dar o salto que liberta da angústia e do medo? Enfim, relativizar a morte. É uma longa viagem, que apenas começou.
Acompanhando o estilo personalizado de Coutinho, um contador de “causos” vou arrolando.
Em palestra que proferi no Curso de pós-graduação em psico-oncologia, no Hospital do Câncer relatei –
Valentim Rasputin nasceu em 1937, num povoado chamado Ushti Udá, nas margens do Rio Tangará, na Sibéria. Ele tem um conto chamado “A Velha”. Uma mulher encarquilhada e muito velha ficava deitada num catre permanentemente gemendo. Ela tinha sido xamã na juventude, que é um feiticeiro, que cura com ervas, crendices, encantos e feitiços, mas o xamanismo foi proibido na União Soviética, perseguido e punido. A velha diz à filha: “Minha filha, eu estou morrendo”. E a filha diz: “Você está com medo?” A velha: “Não estou com medo, estou preocupada. Todo o meu saber, tudo o que eu conheço, quando eu morrer, não vou ter para quem passar, são centenas de anos de conhecimento que vão morrer comigo, e eu queria passar pra você.” A filha diz: “Você, além de doente, está louca. Isso são crendices e superstições estúpidas e absurdas e a mim não interessa ser feiticeira, xamã”. A velha começa a grunhir de dor. A neta entra e pergunta: – “Por que ela está gemendo?” – A filha: – “Por que ela pensa que é uma xamã”. A velha chama a neta e diz: “Eu quero transmitir o saber para você!” E a menininha sai correndo de medo. E a velha morre. No dia do enterro, o prefeito da cidade e os vizinhos fazem discursos em homenagem à velha, o prefeito diz: “Ela era uma grande cidadã, ela participava sempre das atividades cívicas da nossa cidade”. Uma vizinha diz: “Ela era uma grande vizinha, sempre amiga.” Outra diz: “Eu a conheci quando jovem, ela era muito bonita”. E assim vai. A cerimônia termina. No dia seguinte, a menina sai clandestinamente de casa, vai ao cemitério, chega perto da sepultura da avó e repete essas frases: “Ela era uma grande cidadã. Ela era uma grande vizinha, sempre amiga. Ela era muito bonita.” Ela olha pra pedra e diz. “Está vendo vó, você não morreu, eles enterraram uma outra mulher.”
Uma sociedade que conhece a linha divisória exclui sempre. Exclui o negro, o homossexual, o obeso, o excepcional (que Coutinho chama de débil mental), um morador de rua, o fumante e o velho, um gênero de feiúra etária.
“Last but not least” a professora Vanessa Barreto da Universidade Estadual de Montes Claros leu o artigo da revista “The Lancet” em que Coutinho alega ter se baseado para elaborar sua esdrúxula concepção de vida e morte: http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(08)61594-9 e chego a conclusão de que João não sabe interpretar a língua inglesa. Analisando –
"A revista britânica 'The Lancet' resolveu fazer um estudo sobre a qualidade de vida a partir dos 50 anos." (J.P. Coutinho) O artigo propôs-se a estudar as desigualdades de anos de vida saudável em 25 países da União Européia em 2005.
"Porque viver mais não significa viver melhor." (J. P. Coutinho) (?)
Viver mais também não significa viver pior. O artigo da "The Lancet" relata que embora a expectativa de vida na UE esteja em franco crescimento, não se sabe se tais anos extras são vividos com boa saúde.
"A partir dos 50 anos, que esperança boa de vida têm os habitantes da União Européia? (J.P. Coutinho).
Essa indagação não está presente no artigo.
Foram calculados através do método Sullivan, expectativas de vida e de anos de vida saudável a partir dos 50 levando-se em consideração o sexo e o país.
Descobriu-se que os anos de vida saudável bem como a expectativa de vida variam largamente nos 25 países envolvidos na pesquisa, e estão relacionados a fatores que vão desde renda total familiar, passando por gastos com seguros de saúde, desemprego (influenciando negativamente) até aprendizagem por toda a vida (positivamente).
A pesquisa conclui, diferentemente do que tenta mostrar o artigo do Coutinho, que existem desigualdades substanciais em HLYs (anos de vida saudável) nos países da UE e não, que não há vida após os 50.
O estudo sugere ainda o que preconizo: sem melhoras ou políticas que promovam o bem-estar aliado à longevidade, a participação dessa população na força de trabalho fica difícil nos 25 países pesquisados.
Devo registrar que a divergência entre mim e Coutinho é insanável. Acredito na vida como sentido e não como processo em finitude.
Jacob Pinheiro Goldberg
(Psicanalista, autor de “Don’t let me die”, S.O.S Woman, E.U.A e Instituto Emilio Ribas, “Clave da Morte” e “Cultura da Agressividade”.)
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
PAPAGAIO DE PROSTIBULO
Rio de Janeiro, na zona do meretrício, as cafetinas mantinham na sala de entrada de suas “pensões”, papagaios de estimação.
O mais famoso deles, autentica correia de transmissão das noticias apimentadas, versões sobre orgias, segredos, intrigas e palavrões era conhecido pelo apelido de Albertine, coincidência ou não o nome do ou da personagem de Marcel Proust.
Era uma ave nervosa, agitada, correndo pra cima e pra baixo no poleiro, sempre acompanhada por uma corte de admiradores, aduladores e cortesões que usavam seu matraquear para espalhar boatos, enxovalhar inimigos e disseminar asneiras repetidas pelos usuários do estabelecimento.
Albertine também era considerado uma espécie de internauta.
Os cafajestes e gozadores se divertem “batendo palmas para doido dançar”, levando Albertine a um verdadeiro franesí.
Uma colher de milho e pronto o papagaio começava sua ladainha – Fulano e Beltrano estão de caso, Sicrano dormiu com a mulher do porteiro, o porteiro roubou a patroa, patroa, patroa, patroa, até que um dos fregueses lhe dava um tapa.
Acovardado Albertine ficava em silencio por alguns minutos. Mas bastava outra colher de milho e retomava a sermão: “Corrupção, corrupaco papaco”.
As pensionistas reptiam, as vezes em coro, o noticiário critico e moralisteiro de Albertine – “Beltrano é corno, a Zita está com gonorréia” e abria os olhos, o nariz adunco, autentica “tia veia”.
O lugar era ponto de encontro de vadios, caftens e uma espécie de intelectuais periféricos, que viviam dos favores de banqueiros e industriais, políticos que alimentavam as fantasias neuróticas de suas desimportancias.
Também uma ou outra mulher “largada” (no jargão machista) sempre com um discurso de hipocrisia ética: “acabei aqui por causa do assedio de fulano que pensava em me comprar”. Invendáveis, virgens de araque municiando os ouvidos de Albertine.
Que lançava ao mundo e ao lamaçal a sina de ave enfeitiçada: “Não presta, não presta, não presta”. Incorruptível, paco, paco, pataco.
No espírito característico do carioca hoje resta uma lenda urbana de que Albertine incorpora em certos indivíduos, numa espécie de mediunidade e segue seu triste destino de Esfinge micha.
No seu “site” se lê – “Ninguém interpreta noticia como eu”, Eu, eu, eu, eu.....
O mais famoso deles, autentica correia de transmissão das noticias apimentadas, versões sobre orgias, segredos, intrigas e palavrões era conhecido pelo apelido de Albertine, coincidência ou não o nome do ou da personagem de Marcel Proust.
Era uma ave nervosa, agitada, correndo pra cima e pra baixo no poleiro, sempre acompanhada por uma corte de admiradores, aduladores e cortesões que usavam seu matraquear para espalhar boatos, enxovalhar inimigos e disseminar asneiras repetidas pelos usuários do estabelecimento.
Albertine também era considerado uma espécie de internauta.
Os cafajestes e gozadores se divertem “batendo palmas para doido dançar”, levando Albertine a um verdadeiro franesí.
Uma colher de milho e pronto o papagaio começava sua ladainha – Fulano e Beltrano estão de caso, Sicrano dormiu com a mulher do porteiro, o porteiro roubou a patroa, patroa, patroa, patroa, até que um dos fregueses lhe dava um tapa.
Acovardado Albertine ficava em silencio por alguns minutos. Mas bastava outra colher de milho e retomava a sermão: “Corrupção, corrupaco papaco”.
As pensionistas reptiam, as vezes em coro, o noticiário critico e moralisteiro de Albertine – “Beltrano é corno, a Zita está com gonorréia” e abria os olhos, o nariz adunco, autentica “tia veia”.
O lugar era ponto de encontro de vadios, caftens e uma espécie de intelectuais periféricos, que viviam dos favores de banqueiros e industriais, políticos que alimentavam as fantasias neuróticas de suas desimportancias.
Também uma ou outra mulher “largada” (no jargão machista) sempre com um discurso de hipocrisia ética: “acabei aqui por causa do assedio de fulano que pensava em me comprar”. Invendáveis, virgens de araque municiando os ouvidos de Albertine.
Que lançava ao mundo e ao lamaçal a sina de ave enfeitiçada: “Não presta, não presta, não presta”. Incorruptível, paco, paco, pataco.
No espírito característico do carioca hoje resta uma lenda urbana de que Albertine incorpora em certos indivíduos, numa espécie de mediunidade e segue seu triste destino de Esfinge micha.
No seu “site” se lê – “Ninguém interpreta noticia como eu”, Eu, eu, eu, eu.....
sexta-feira, 30 de maio de 2008
"Sessão Pública - Aberta aos convidados".
Em continuidade ao Projeto "Palestras da Loja Maçônica Estrella da Syria", gostariamos de convidá-lo para estar conosco no dia 29/05/08, quinta feira, às 20h, quando estaremos realizando a palestra (que acontecera no Templo Piratininga - Rua São Joaquim, 457):
Tema: "Psicologia sem Fronteiras"
O século XX foi o século da economia, onde todos os esforços foram concentrados no lema de que quanto + riqueza, melhor. Mas este modo de pensar parece não ter feito pessoas mais felizes, ou seja algo não funcionou bem neste modo de pensar. Parece que estamos despertando para isso e tudo indica que o século XXI pode via a ser o século do espiritual.
Nunca o ser humano esteve tão preocupado com o bem, com o belo, com o físico e com a saúde quanto nos tempos atuais. Mas isto como meio ou como fim?
Palestrante:
Jacob Pinheiro Goldberg, Doutor em psicologia, psicólogo, advogado, assistente-social, escritor, professor convidado – University College London Medical – Universidade Eotvos Liorand(Hungria) – Universytet Jagiellonski e Universytet Warszawski (Polônia); Middlesex University (Inglaterra); Hebrew University of Jerusalém; USP – PUC/SP – PUCC – Universidade de Brasília – UNESP – Mackenzie, Aspirus Wausau Hospital, Wisconsin (E.U.A.).
Em continuidade ao Projeto "Palestras da Loja Maçônica Estrella da Syria", gostariamos de convidá-lo para estar conosco no dia 29/05/08, quinta feira, às 20h, quando estaremos realizando a palestra (que acontecera no Templo Piratininga - Rua São Joaquim, 457):
Tema: "Psicologia sem Fronteiras"
O século XX foi o século da economia, onde todos os esforços foram concentrados no lema de que quanto + riqueza, melhor. Mas este modo de pensar parece não ter feito pessoas mais felizes, ou seja algo não funcionou bem neste modo de pensar. Parece que estamos despertando para isso e tudo indica que o século XXI pode via a ser o século do espiritual.
Nunca o ser humano esteve tão preocupado com o bem, com o belo, com o físico e com a saúde quanto nos tempos atuais. Mas isto como meio ou como fim?
Palestrante:
Jacob Pinheiro Goldberg, Doutor em psicologia, psicólogo, advogado, assistente-social, escritor, professor convidado – University College London Medical – Universidade Eotvos Liorand(Hungria) – Universytet Jagiellonski e Universytet Warszawski (Polônia); Middlesex University (Inglaterra); Hebrew University of Jerusalém; USP – PUC/SP – PUCC – Universidade de Brasília – UNESP – Mackenzie, Aspirus Wausau Hospital, Wisconsin (E.U.A.).
terça-feira, 13 de maio de 2008
A MADRASTA E O TERCEIRO EXCLUÍDO
Entrevista publicada na revista “SAX” –Para o jornalista Alex Solnic
“Nós somos aqueles que matamos a quem mais amamos.” (Oscar Wilde)
JACOB PINHEIRO GOLDBERG*
Nós somos herdeiros de uma tradição que remonta à Idade Media, o conceito da mulher-bruxa que seria, na verdade, a esposa de Satã.
Se você remontar a períodos anteriores, pelo menos em relação à civilização ocidental, sem dúvida que teríamos que nos reportar ao conceito de Lilith, que segundo a Cabala seria a mulher proibida de Adão, portanto, a Outra, a Amante.
É nesse traço de serpente insidiosa que se estabelece, principalmente a partir da Idade Média, com a idéia das bruxas, a idéia dessa mulher que não faz o papel sacralizado da mãe, papel que se imagina da mulher perfeita, por isso associada ao conceito de total amor.
No folclore, quando se pensa na madrasta, ela é a mulher que maltrata, tanto é que se faz uma certa relação, uma certa sinonímia que não é só de origem sangüínea: quem pariu Mateus que o embale. Por que no folclore, frequentemente, mesmo para a mãe sangüínea que abandona o filho se usa a equação ‘ela até parece madrasta’, não obstante ser a mãe que gerou.
A madrasta é sempre má? E por que a “segunda mãe” também é madrasta?
Não existe ainda uma nomenclatura para a figura da segunda mãe, que foi batizada de madrasta. Na realidade, podemos até estender ao conceito de padrasto, só que há diferenças: até na jurisprudência, nos acertos legais relativos a crimes cometidos, prevalece o conceito de que o pai que casa com a mulher e por isso passa a exercer papel de entidade paterna nunca é tão ciumento, tão difícil, tão severo, tão rigoroso quanto a mulher, o que traz no seu bojo, mais uma vez, o preconceito machista.
Explicando melhor: se o homem casa com uma mulher que tem filhos, ele já é visto tanto por essas crianças quanto por essa mulher como mais compreensivo, mais tolerante com os filhos que não são dele do que no caso inverso.
Talvez ele tenha um papel mais poderoso, é o homem que traz dinheiro para casa, enquanto a outra, teoricamente, é uma gastadora. Dá despesa, vai dividir fortuna em caso de falecimento, de inventário... e assim por diante.
Agora, o que também é muito interessante de se revelar é que o ser humano não é só agente de funções sociais, ele é objeto de função social. Explicando melhor: quando uma mulher vai casar com um homem que é viúvo ou separado ela já vai com uma tendência a exercitar esse papel.
Essa mulher vai ter que encarar filhos que já têm a suspeita de que ela é uma invasora, que pretende ocupar o papel considerado mais sagrado na nossa cultura, que é o papel de mãe. Então, essas crianças não vão aceitar a transfer0bncia psíquica no seu imaginário e no simbólico.
A madrasta vai ter que passar uma parte da sua vida provando em primeiro lugar que ela não é essa feiticeira maldosa a que os contos de fada tanto aludem. E os contos de fada, todos sabemos hoje que correspondem a fantasias neuróticas infantis.
Então, ela vai ter que provar que ela não é a ladra, a que roubou o papel da mãe, primeiro. É um esforço extraordinário, você já partir de uma posição socialmente, familiarmente e intrapsiquicamente extremamente desconfortável.
E se ainda não tiver, como a maioria de nós não temos, um equilíbrio, uma harmonia muito bem resolvida, a tendência no caso da madrasta é a de desempenhar o papel que a sociedade lhe impõe.
A relação da madrasta com a filha do marido é sempre tensa?
Muitas vezes a relação da mãe sangüínea com a filha é mais tensa do que com a madrasta e a filha. Tanto é que um dos contos mais extraordinários da literatura árabe, de Kalil Gibran Kalil é assim: a mãe e sua filha adulta deitam na mesma cama para dormirem e antes de pegarem no sono fazem grandes declarações de amor, se acariciam, se beijam, Manifestam todos os sentimentos positivos e dormem. Entregues ao sono, elas sonham,. E as duas têm pesadelos. E nesse pesadelo elas cometem, cada uma, o assassinato do ente querido na vigília. A mãe sonhou ter matado a filha. A filha sonhou ter matado a mãe. Ao acordar, elas voltam ao seu papel.
Kalil Gibran, um dos poetas que mais usou os recursos psicológicos na literatura, mostra que esse recalque dos sentimentos proibidos mascara situações muito violentas. Então, se isso acontece com a mãe de sangue, é natural que esse ciúme se estabeleça quando há duas mulheres. Ou seja: a madrasta e a filha do seu companheiro são duas mulheres teoricamente disputando o amor do mesmo homem. E mais, na eventualidade de não se tratar de uma órfã e sim filha de mãe viva, esse sentimento ainda fica dentro de um cipoal muito mais complexo, de muito mais difícil deslinde. Porque a mãe biológica vai ter uma tendência natural de ter medo de que essa madrasta também vá roubar o amor da sua filha.
O fato é que nós estamos dentro de um processo extremamente perigoso, principalmente tendo em vista que hoje no Brasil, no período aproximado de três anos mais ou menos 60% dos casamentos se desfazem, portanto novos casamentos se estabelecem.
E hoje boa parte da população que vive casada ou amancebada você pode considerar na faixa de 60% a partir de oito anos, grande parte dos casais está no segundo ou terceiro casamento, então essas interações estão cada vez mais presentes e mais complexas.
Porque às vezes a madrasta tem que cuidar dos seus filhos da primeira relação; dos filhos do seu companheiro da segunda relação; dos filhos dele da primeira relação... então há também os choques fraternos, dos meio-irmãos.
As divisões internas das atenções e do zelo, todos sabemos que já não são fáceis na família tradicional, então se imagina a exasperação desses jogos nesses grupos modernos que substituíram a família tradicional. É muito mais difícil e sempre localizado numa tendência passional, onde a reação é substituída por paixões desenfreadas, quando não por compulsões.
O que desencadeia a agressão é o ciúme?
Eu acho que as relações humanas, mesmo aquelas muito próximas do afeto como emoção central são carregadas de agressividade. O ser humano é filogeneticamente programado para a agressividade. Existe uma diferença entre agressividade e perversidade.
A perversidade é a agressividade orientada no sentido de mutilar, torturar e matar alguém da mesma espécie sem uma causa que explique. E até com prazer. A tortura. E são elementos do sado-masoquismo, que são sentimentos genéricos na condição humana.
Eu acho que o cinema, DVD, internet, TV essa imagética toda têm servido como elemento catártico, quer dizer, você projeta na tela esses sentimentos, mas também está acontecendo o contrário: principalmente através da instantaneidade e a simultaneidade de informação, também está acontecendo o contrário.
Hoje você pega qualquer filme americano, comum, o mais comum, você vê pais matando filhos, filhos matando pais, a violência das emoções levadas ao nível do paroxismo. Só hoje na Folha tem quatro noticias de morte de criança. Só hoje. Infelizmente, existe uma cultura de destrutividade na qual nós estamos imersos. Quando, então, o indivíduo é obrigado a conviver, como, no caso da madrasta com os filhos de outro homem na mesma casa, em condições freqüentemente difíceis, ciúme, inveja, ressentimento são emoções que podem levar à ira, ao furor, à perda de controle.
O que leva um adulto a matar uma criança?
Eu acho que no caso da Isabella existem vários ângulos que merecem ser discutidos. Em primeiro lugar, quero deixar claro o seguinte: que a gente pode discutir esse caso em tese; enquanto não houver um julgamento, o que existe na minha opinião é um linchamento, desse linchamento faz parte uma população ressentida, sedenta de vingança, ignorante, como é a média da população brasileira, incapaz de compreender a complexidade dos meandros psíquicos e jurídicos de um crime dessa natureza, manipulada principalmente pela mídia televisiva.
Essa mídia televisiva perdeu, na minha opinião, o mínimo do senso de decência, está se repetindo o fenômeno da caça às bruxas.
Eu acho que aqui existe um crime infame, que é exatamente o assassinato de uma criança e existem dois suspeitos, que a policia elegeu antes das provas. Ainda que posteriormente fossem divulgados laudos, o fato é que, historicamente, nós sabemos que sempre foi muito fácil se usar todas as aparências de prova, muitas vezes para acobertar situações inesperadas. Mas, de qualquer maneira, existe aí um crime infame, existem suspeitos, mas por enquanto são suspeitos.
O que me chama muita atenção é que essa criança foi usada, seja qual tenha sido a circunstância, como bode expiatório. Essa criança não foi o agente provocador da sua morte. Não haveria qualquer motivo, seja de um pai ou de estranhos, que poderia de alguma maneira explicar esse assassinato. Então, ela é o bode expiatório. Seja de vingança, de ódio, de crime, por vizinho, por pai, por mãe – é um bode expiatório. Agora, o que nós não podemos é transformar também o casal em bode expiatório. De uma população violenta e agressiva como a nossa.
O instinto de destruição é o mais forte?
O fato é que só pode existir qualquer resposta a essa questão da madrasta se nós entendermos o impulso de destruição chamado destruct versus construct, a necrofilia versus biofilia, o impulso de morte versus impulso de vida que existe em cada um de nós. Não esquecendo a famosa frase de Oscar Wilde: “Nós somos aqueles que matamos a quem mais amamos.”
Então, o amor e o ódio estão muito perto.
E ali dentro havia jogos de amor, independente de eles serem ou não culpados. Mas o que a gente tem é a percepção da intervenção muito grande das famílias de origem, a família do pai Antonio, e do pai dela, muita gente, ali dá impressão de relações quase tribais. Nessas relações tribais em geral as crianças de alguma maneira, direta ou indiretamente, pagam um preço muito alto.
Por que? Por covardia. Os adultos não têm coragem de se confrontarem, fica muito mais fácil descontar nas crianças, que são alvos fáceis nos quais se despejam esses ódios.
Que tipo de confronto pode ter havido?
Veja bem: eram três crianças dentro da cena. Se nós partirmos do pressuposto ou da probabilidade de que fossem eles, uma das crianças seria o chamado Terceiro Excluído.
O Terceiro Excluído é a figura clássica dentro da psicologia, daquele que não tem espaço do qual ele participa. Ele é o Outro. Então, essa é uma das hipóteses.
O que eu quero discutir: esse crime passa a ser emblemático daqui pra frente na cultura brasileira.
Vejo semelhanças com um episódio bíblico fundamental, que dividiu a civilização em duas eras: a era da crueldade e a era da inocência. Deus manda Abraão sacrificar o filho Isaque. Deus é o super-pai. O pai obedece. Levanta a espada contra o filho. Mas o anjo salvador segura a mão do pai. Isaque não é sacrificado. Deus não queria sangue, só a prova da obediência cega.
Desta vez, o anjo se ausentou da cena.
A criança não é mais vista como elemento vulnerável, indefeso. Eu tive uma discussão violenta a respeito da pedofilia num debate na revista Trip. Eu dizia que a pedofilia é um crime dos mais graves e alguns intelectuais se opuseram, afirmando que não é tão simples assim, afinal a menina era um elemento sexual de desejo, eu tinha que compreender que, modernamente, a partir do Lolita, de Nabokov essa é mais uma das manifestações de erotismo admissíveis.
Por que a madrasta é mais odiada que o pai?
Voltando à questão da madrasta, da filha, da mulher, através de uma revolução feminista que foi truncada, o que aconteceu?
Aqueles que se imaginam na vanguarda da libertação da mulher, transformaram a mulher na cachorra, e o ídolo da cachorra quem é, segundo o funk carioca? É o cafetão. Isso, aliás, numa imitação da música popular negra norte-americana.
É preciso ter coragem de mostrar essa adulteração de algumas das bandeiras comportamentais mais avançadas aparentemente que se deturparam de tal maneira que nós estamos transformando aquilo que eram sonhos socialistas em realidades fascistas.
Isso não só com a concordância, mas com o masoquismo feminino. A mulher se prestando a esse serviço. Não é mais a mulher; é a adolescente; não é mais a adolescente, é a criança.
Hoje, meninas - e é um testemunho meu como psicanalista - de 11, 12 anos de idade fazem questão de ficar entre aspas com menininhos, disputando campeonatos pra ver quem beija mais, cada vez a crianças mais novas se pergunta se têm namorada. Se você transmite regras tão intimas quanto morais e sexuais nós estamos muito perto do homicídio, estamos muito perto do assassinato da individualidade da criança, desrespeito completo.
A partir daí, se você trata uma criança como um adulto, se essa criança olha com olhar negativo para um adulto, pode ser considerado uma provocação que justifique uma reação brutal.
E outra coisa. Partindo ainda da hipótese de que esse casal tenha matado a criança, você percebe que grande parte do ódio popular se volta muito mais contra a madrasta do que contra o próprio pai, o que é uma aberração porque se nós levarmos em conta a ordem natural, em termos de civilização, a pessoa mais próxima seria o pai, então o crime seria mais infame praticado pelo pai.
Mas o que a mentalidade popular imagina? Que esse pai foi manipulado pela madrasta. Quer dizer, mais uma vez, até nesse caso, o que ocorre é isso. Se nós levarmos em conta a hipótese de uma discussão mais ampla, e eu reitero que enquanto não houver um julgamento, com todas as suspeitas que esse reality show está provocando, eu como advogado que trabalhou muitos anos com o crime, acho tudo muito estranho, tudo me lembra um grande espetáculo midiático e uma incompetência muito grande, de todos os participantes.
Mas, digamos que tenha sido, por que não se admitir que fosse só o pai? Não, alguém levantou a hipótese de que a perícia teria mostrado que o machucado no pescoço seria do tamanho da mão da madrasta. Vão me desculpar, mas nem a CIA consegue identificar com essa precisão...
Não tenho acesso aos laudos, prefiro falar do ângulo psicológico, mas qualquer laudo admite um contra-laudo, Nós não estamos trabalhando com ciências exatas e sim com ciência biológica, que sempre admite uma margem de erro, de ambivalência e subjetividade.
Será que os pais pensam: o filho é meu e eu faço com ele o que eu quiser? Para os grupos humanos primitivos, no Oriente, principalmente, é muito comum a idéia de que as crianças podem ser vendidas, com 10 anos se estabelece contrato de casamento, a menina é vendida aos 11 para um homem de 60. Levando essa idéia à última fronteira da razão, leva ao filicídio.
Diariamente tenho contato com relações entre madrastas e suas “filhas”. Cada dia mais. E nunca encontro relações que no profundo eu possa considerar harmoniosas e muito menos razoáveis, embora muitas vezes debaixo do manto da hipocrisia.
Você repara uma coisa: no caso aqui outro fenômeno que me chamou a atenção em todo esse processo são as reações estranhas, as reações idiossincráticas atípicas. Você não vê quase choro compulsivo, não vê reações intensas de sofrimento, de dor, de nenhum dos participantes: nem pai, nem mãe, nem madrasta, nem avô, nem avó.
“Nós somos aqueles que matamos a quem mais amamos.” (Oscar Wilde)
JACOB PINHEIRO GOLDBERG*
Nós somos herdeiros de uma tradição que remonta à Idade Media, o conceito da mulher-bruxa que seria, na verdade, a esposa de Satã.
Se você remontar a períodos anteriores, pelo menos em relação à civilização ocidental, sem dúvida que teríamos que nos reportar ao conceito de Lilith, que segundo a Cabala seria a mulher proibida de Adão, portanto, a Outra, a Amante.
É nesse traço de serpente insidiosa que se estabelece, principalmente a partir da Idade Média, com a idéia das bruxas, a idéia dessa mulher que não faz o papel sacralizado da mãe, papel que se imagina da mulher perfeita, por isso associada ao conceito de total amor.
No folclore, quando se pensa na madrasta, ela é a mulher que maltrata, tanto é que se faz uma certa relação, uma certa sinonímia que não é só de origem sangüínea: quem pariu Mateus que o embale. Por que no folclore, frequentemente, mesmo para a mãe sangüínea que abandona o filho se usa a equação ‘ela até parece madrasta’, não obstante ser a mãe que gerou.
A madrasta é sempre má? E por que a “segunda mãe” também é madrasta?
Não existe ainda uma nomenclatura para a figura da segunda mãe, que foi batizada de madrasta. Na realidade, podemos até estender ao conceito de padrasto, só que há diferenças: até na jurisprudência, nos acertos legais relativos a crimes cometidos, prevalece o conceito de que o pai que casa com a mulher e por isso passa a exercer papel de entidade paterna nunca é tão ciumento, tão difícil, tão severo, tão rigoroso quanto a mulher, o que traz no seu bojo, mais uma vez, o preconceito machista.
Explicando melhor: se o homem casa com uma mulher que tem filhos, ele já é visto tanto por essas crianças quanto por essa mulher como mais compreensivo, mais tolerante com os filhos que não são dele do que no caso inverso.
Talvez ele tenha um papel mais poderoso, é o homem que traz dinheiro para casa, enquanto a outra, teoricamente, é uma gastadora. Dá despesa, vai dividir fortuna em caso de falecimento, de inventário... e assim por diante.
Agora, o que também é muito interessante de se revelar é que o ser humano não é só agente de funções sociais, ele é objeto de função social. Explicando melhor: quando uma mulher vai casar com um homem que é viúvo ou separado ela já vai com uma tendência a exercitar esse papel.
Essa mulher vai ter que encarar filhos que já têm a suspeita de que ela é uma invasora, que pretende ocupar o papel considerado mais sagrado na nossa cultura, que é o papel de mãe. Então, essas crianças não vão aceitar a transfer0bncia psíquica no seu imaginário e no simbólico.
A madrasta vai ter que passar uma parte da sua vida provando em primeiro lugar que ela não é essa feiticeira maldosa a que os contos de fada tanto aludem. E os contos de fada, todos sabemos hoje que correspondem a fantasias neuróticas infantis.
Então, ela vai ter que provar que ela não é a ladra, a que roubou o papel da mãe, primeiro. É um esforço extraordinário, você já partir de uma posição socialmente, familiarmente e intrapsiquicamente extremamente desconfortável.
E se ainda não tiver, como a maioria de nós não temos, um equilíbrio, uma harmonia muito bem resolvida, a tendência no caso da madrasta é a de desempenhar o papel que a sociedade lhe impõe.
A relação da madrasta com a filha do marido é sempre tensa?
Muitas vezes a relação da mãe sangüínea com a filha é mais tensa do que com a madrasta e a filha. Tanto é que um dos contos mais extraordinários da literatura árabe, de Kalil Gibran Kalil é assim: a mãe e sua filha adulta deitam na mesma cama para dormirem e antes de pegarem no sono fazem grandes declarações de amor, se acariciam, se beijam, Manifestam todos os sentimentos positivos e dormem. Entregues ao sono, elas sonham,. E as duas têm pesadelos. E nesse pesadelo elas cometem, cada uma, o assassinato do ente querido na vigília. A mãe sonhou ter matado a filha. A filha sonhou ter matado a mãe. Ao acordar, elas voltam ao seu papel.
Kalil Gibran, um dos poetas que mais usou os recursos psicológicos na literatura, mostra que esse recalque dos sentimentos proibidos mascara situações muito violentas. Então, se isso acontece com a mãe de sangue, é natural que esse ciúme se estabeleça quando há duas mulheres. Ou seja: a madrasta e a filha do seu companheiro são duas mulheres teoricamente disputando o amor do mesmo homem. E mais, na eventualidade de não se tratar de uma órfã e sim filha de mãe viva, esse sentimento ainda fica dentro de um cipoal muito mais complexo, de muito mais difícil deslinde. Porque a mãe biológica vai ter uma tendência natural de ter medo de que essa madrasta também vá roubar o amor da sua filha.
O fato é que nós estamos dentro de um processo extremamente perigoso, principalmente tendo em vista que hoje no Brasil, no período aproximado de três anos mais ou menos 60% dos casamentos se desfazem, portanto novos casamentos se estabelecem.
E hoje boa parte da população que vive casada ou amancebada você pode considerar na faixa de 60% a partir de oito anos, grande parte dos casais está no segundo ou terceiro casamento, então essas interações estão cada vez mais presentes e mais complexas.
Porque às vezes a madrasta tem que cuidar dos seus filhos da primeira relação; dos filhos do seu companheiro da segunda relação; dos filhos dele da primeira relação... então há também os choques fraternos, dos meio-irmãos.
As divisões internas das atenções e do zelo, todos sabemos que já não são fáceis na família tradicional, então se imagina a exasperação desses jogos nesses grupos modernos que substituíram a família tradicional. É muito mais difícil e sempre localizado numa tendência passional, onde a reação é substituída por paixões desenfreadas, quando não por compulsões.
O que desencadeia a agressão é o ciúme?
Eu acho que as relações humanas, mesmo aquelas muito próximas do afeto como emoção central são carregadas de agressividade. O ser humano é filogeneticamente programado para a agressividade. Existe uma diferença entre agressividade e perversidade.
A perversidade é a agressividade orientada no sentido de mutilar, torturar e matar alguém da mesma espécie sem uma causa que explique. E até com prazer. A tortura. E são elementos do sado-masoquismo, que são sentimentos genéricos na condição humana.
Eu acho que o cinema, DVD, internet, TV essa imagética toda têm servido como elemento catártico, quer dizer, você projeta na tela esses sentimentos, mas também está acontecendo o contrário: principalmente através da instantaneidade e a simultaneidade de informação, também está acontecendo o contrário.
Hoje você pega qualquer filme americano, comum, o mais comum, você vê pais matando filhos, filhos matando pais, a violência das emoções levadas ao nível do paroxismo. Só hoje na Folha tem quatro noticias de morte de criança. Só hoje. Infelizmente, existe uma cultura de destrutividade na qual nós estamos imersos. Quando, então, o indivíduo é obrigado a conviver, como, no caso da madrasta com os filhos de outro homem na mesma casa, em condições freqüentemente difíceis, ciúme, inveja, ressentimento são emoções que podem levar à ira, ao furor, à perda de controle.
O que leva um adulto a matar uma criança?
Eu acho que no caso da Isabella existem vários ângulos que merecem ser discutidos. Em primeiro lugar, quero deixar claro o seguinte: que a gente pode discutir esse caso em tese; enquanto não houver um julgamento, o que existe na minha opinião é um linchamento, desse linchamento faz parte uma população ressentida, sedenta de vingança, ignorante, como é a média da população brasileira, incapaz de compreender a complexidade dos meandros psíquicos e jurídicos de um crime dessa natureza, manipulada principalmente pela mídia televisiva.
Essa mídia televisiva perdeu, na minha opinião, o mínimo do senso de decência, está se repetindo o fenômeno da caça às bruxas.
Eu acho que aqui existe um crime infame, que é exatamente o assassinato de uma criança e existem dois suspeitos, que a policia elegeu antes das provas. Ainda que posteriormente fossem divulgados laudos, o fato é que, historicamente, nós sabemos que sempre foi muito fácil se usar todas as aparências de prova, muitas vezes para acobertar situações inesperadas. Mas, de qualquer maneira, existe aí um crime infame, existem suspeitos, mas por enquanto são suspeitos.
O que me chama muita atenção é que essa criança foi usada, seja qual tenha sido a circunstância, como bode expiatório. Essa criança não foi o agente provocador da sua morte. Não haveria qualquer motivo, seja de um pai ou de estranhos, que poderia de alguma maneira explicar esse assassinato. Então, ela é o bode expiatório. Seja de vingança, de ódio, de crime, por vizinho, por pai, por mãe – é um bode expiatório. Agora, o que nós não podemos é transformar também o casal em bode expiatório. De uma população violenta e agressiva como a nossa.
O instinto de destruição é o mais forte?
O fato é que só pode existir qualquer resposta a essa questão da madrasta se nós entendermos o impulso de destruição chamado destruct versus construct, a necrofilia versus biofilia, o impulso de morte versus impulso de vida que existe em cada um de nós. Não esquecendo a famosa frase de Oscar Wilde: “Nós somos aqueles que matamos a quem mais amamos.”
Então, o amor e o ódio estão muito perto.
E ali dentro havia jogos de amor, independente de eles serem ou não culpados. Mas o que a gente tem é a percepção da intervenção muito grande das famílias de origem, a família do pai Antonio, e do pai dela, muita gente, ali dá impressão de relações quase tribais. Nessas relações tribais em geral as crianças de alguma maneira, direta ou indiretamente, pagam um preço muito alto.
Por que? Por covardia. Os adultos não têm coragem de se confrontarem, fica muito mais fácil descontar nas crianças, que são alvos fáceis nos quais se despejam esses ódios.
Que tipo de confronto pode ter havido?
Veja bem: eram três crianças dentro da cena. Se nós partirmos do pressuposto ou da probabilidade de que fossem eles, uma das crianças seria o chamado Terceiro Excluído.
O Terceiro Excluído é a figura clássica dentro da psicologia, daquele que não tem espaço do qual ele participa. Ele é o Outro. Então, essa é uma das hipóteses.
O que eu quero discutir: esse crime passa a ser emblemático daqui pra frente na cultura brasileira.
Vejo semelhanças com um episódio bíblico fundamental, que dividiu a civilização em duas eras: a era da crueldade e a era da inocência. Deus manda Abraão sacrificar o filho Isaque. Deus é o super-pai. O pai obedece. Levanta a espada contra o filho. Mas o anjo salvador segura a mão do pai. Isaque não é sacrificado. Deus não queria sangue, só a prova da obediência cega.
Desta vez, o anjo se ausentou da cena.
A criança não é mais vista como elemento vulnerável, indefeso. Eu tive uma discussão violenta a respeito da pedofilia num debate na revista Trip. Eu dizia que a pedofilia é um crime dos mais graves e alguns intelectuais se opuseram, afirmando que não é tão simples assim, afinal a menina era um elemento sexual de desejo, eu tinha que compreender que, modernamente, a partir do Lolita, de Nabokov essa é mais uma das manifestações de erotismo admissíveis.
Por que a madrasta é mais odiada que o pai?
Voltando à questão da madrasta, da filha, da mulher, através de uma revolução feminista que foi truncada, o que aconteceu?
Aqueles que se imaginam na vanguarda da libertação da mulher, transformaram a mulher na cachorra, e o ídolo da cachorra quem é, segundo o funk carioca? É o cafetão. Isso, aliás, numa imitação da música popular negra norte-americana.
É preciso ter coragem de mostrar essa adulteração de algumas das bandeiras comportamentais mais avançadas aparentemente que se deturparam de tal maneira que nós estamos transformando aquilo que eram sonhos socialistas em realidades fascistas.
Isso não só com a concordância, mas com o masoquismo feminino. A mulher se prestando a esse serviço. Não é mais a mulher; é a adolescente; não é mais a adolescente, é a criança.
Hoje, meninas - e é um testemunho meu como psicanalista - de 11, 12 anos de idade fazem questão de ficar entre aspas com menininhos, disputando campeonatos pra ver quem beija mais, cada vez a crianças mais novas se pergunta se têm namorada. Se você transmite regras tão intimas quanto morais e sexuais nós estamos muito perto do homicídio, estamos muito perto do assassinato da individualidade da criança, desrespeito completo.
A partir daí, se você trata uma criança como um adulto, se essa criança olha com olhar negativo para um adulto, pode ser considerado uma provocação que justifique uma reação brutal.
E outra coisa. Partindo ainda da hipótese de que esse casal tenha matado a criança, você percebe que grande parte do ódio popular se volta muito mais contra a madrasta do que contra o próprio pai, o que é uma aberração porque se nós levarmos em conta a ordem natural, em termos de civilização, a pessoa mais próxima seria o pai, então o crime seria mais infame praticado pelo pai.
Mas o que a mentalidade popular imagina? Que esse pai foi manipulado pela madrasta. Quer dizer, mais uma vez, até nesse caso, o que ocorre é isso. Se nós levarmos em conta a hipótese de uma discussão mais ampla, e eu reitero que enquanto não houver um julgamento, com todas as suspeitas que esse reality show está provocando, eu como advogado que trabalhou muitos anos com o crime, acho tudo muito estranho, tudo me lembra um grande espetáculo midiático e uma incompetência muito grande, de todos os participantes.
Mas, digamos que tenha sido, por que não se admitir que fosse só o pai? Não, alguém levantou a hipótese de que a perícia teria mostrado que o machucado no pescoço seria do tamanho da mão da madrasta. Vão me desculpar, mas nem a CIA consegue identificar com essa precisão...
Não tenho acesso aos laudos, prefiro falar do ângulo psicológico, mas qualquer laudo admite um contra-laudo, Nós não estamos trabalhando com ciências exatas e sim com ciência biológica, que sempre admite uma margem de erro, de ambivalência e subjetividade.
Será que os pais pensam: o filho é meu e eu faço com ele o que eu quiser? Para os grupos humanos primitivos, no Oriente, principalmente, é muito comum a idéia de que as crianças podem ser vendidas, com 10 anos se estabelece contrato de casamento, a menina é vendida aos 11 para um homem de 60. Levando essa idéia à última fronteira da razão, leva ao filicídio.
Diariamente tenho contato com relações entre madrastas e suas “filhas”. Cada dia mais. E nunca encontro relações que no profundo eu possa considerar harmoniosas e muito menos razoáveis, embora muitas vezes debaixo do manto da hipocrisia.
Você repara uma coisa: no caso aqui outro fenômeno que me chamou a atenção em todo esse processo são as reações estranhas, as reações idiossincráticas atípicas. Você não vê quase choro compulsivo, não vê reações intensas de sofrimento, de dor, de nenhum dos participantes: nem pai, nem mãe, nem madrasta, nem avô, nem avó.
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