sexta-feira, 17 de abril de 2009

ESTADO DE MINAS

PENSAR -

Sábado, 04 de abril de 2009

A poesia como fonte de vida

A solidão e o estranhamento, tanto existencial quanto geográfico, permeiam a poética de Jacob Pinheiro Goldberg. Ora um choque cultural intenso, ora um ímpeto de comunicação e diálogo. “Espécie de errância interior, trajetória de vida contada e recontada em muitos poemas e textos, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg pode ser descrita como a de uma vida singular tornada estranhos poemas ou poemas-vida.” Assim, Marília Librandi Rocha abre alas para a compreensão de uma obra inquietante. E ao partir desta vertente, para organizar a antologia Poemas-Vida (Editora 7Letras), Marília Librandi Rocha articulou um livro que revela a força poética de um escritor desterritorializado.

Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo há mais de 50 anos, o poeta e psicanalista faz da escrita e da poesia a busca de uma expressão de vida. Em constante processo de criação, a fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Admirador confesso da obra de outro poeta mineiro, Murilo Mendes (1901-1975), como um outsider, Goldberg tem instigado o debate de ideias, a reflexão e, com isso, provocado muita polêmica. O “psicólogo da poética”, nas palavras de Sandra Magalhães, investe na construção poética como um desafio de revirar o passado e apontar para o futuro.

Poemas-Vida deriva de um estudo realizado sobre a obra de Jacob Pinheiro Goldberg, defendido em 2003, como tese de doutorado de Marília Librandi Rocha na Universidade de São Paulo (USP). Marília Librandi partiu da leitura de cerca de 1,2 mil textos publicados nos livros de Goldberg (compreendendo por “textos” uma produção escrita que inclui desde poemas longos, crônicas, artigos, até escritos de uma só frase ou poemas de um só verso), chegando a uma seleção que, segundo seu ponto de vista como organizadora, corresponde a algumas das principais preocupações e tendências da escrita de Goldberg. Os textos foram reunidos em sete tópicos: “Parábola e ponto de fuga”, “O nem insólito”, “Sombra da sombra”, “A carne da memória”, “Bio(necro)grafia”, “Errância” e “Melitzá. Fragmentos poéticos”.

Desde então, Goldberg assumiu os próprios textos, antes guardados em gavetas ou publicados em pequenas edições de autor, e teve sua produção escrita reconhecida por um número significativo de leitores, entre os quais Henryk Siewierski, que traduziu 18 de seus poemas para o polonês. O poeta também publicou, em 2005, o livro Rua Halfeld, Ostroviec, no qual mergulha na esquina imaginária entre a rua mais importante de Juiz de Fora e a cidade natal de seus pais na Polônia.

Vento do mundo

Na opinião de João Adolfo Hansen, professor titular de literatura brasileira na USP, a matéria da poesia de Jacob Goldberg é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. “Na sombra, à esquerda da linguagem, Goldberg escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contraefetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal.”

Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizeram de nós, afirma Hansen. E explica: “Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlândia, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados”.

A antologia Poemas-Vida é uma síntese da reflexão poética de Jacob Pinheiro Goldberg ao longo do tempo, em meio à perplexidade, ao desafio, ao caos e à superação. É um compromisso de vida e um compromisso com a escrita. Enfim, é uma outra forma de respirar.

Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador.

POEMAS-VIDA
De Jacob Pinheiro Goldberg
Editora 7 Letras, 120 páginas, R$ 29

quarta-feira, 18 de março de 2009

Vida e morte

JACOB PINHEIRO GOLDBERG


A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento



JOÃO PEREIRA Coutinho escreveu um artigo ("Morte e vida", Ilustrada, 25/11) cuja síntese é: as pessoas podem viver com dignidade até os 74 anos, o resto é desperdício, nas suas considerações que refletem profunda tanatofobia.
Alinho reflexões que desenvolvi no trato com as gentes e as palavras.
Não havendo uma política específica para o velho em nosso país, qual o seu lugar e seu papel na sociedade? Da marginalização no mercado de trabalho, oscilando entre a figura acomodada que merece uma distinção de respeito formal e a condição desprezada de ser atípico, principalmente nas grandes metrópoles.
Realmente, o psiquismo social partiu da importação de estereótipos radicais, numa ótica aguda do chamado "choque de gerações": "Não confie em ninguém com mais de 30 anos", seqüela de um período de revolta juvenil que jogou num confuso cadinho -da "beat generation" a Marcuse, das drogas e Katmandu- o interesse pela comercialização e venda de calças jeans, a excêntrica onda dos gurus orientais, onda modista característica da sociedade de consumo, ondas das imagens das baladas e dos surfistas...
Sociedade esta que valoriza a força física e a aparência estética, que procura promover uma faixa etária endeusada -aquela que produz mais, conseqüentemente, perturba menos (embora, formalmente, conteste mais o poder gerontocrático), aplicando seu dinheiro em mercadorias supérfluas, sem senso crítico acabado-, a juventude, vítima fácil de mecanismos ansiolíticos de voracidade, eis que seres em formação.
A tentativa de sinonímia entre jovem, forte e belo, particularmente por uma TV ensandecida (pela exploração nos anúncios provocadores que raiam a pornografia e pela vacuidade na correspondência entre idoso, fraco e feio). Isso num tempo sem compostura ética, em que ser fraco e feio é quase uma patologia que deve ser corrigida pela eliminação física, lembrando o romance de Casares em que, numa Buenos Aires ficcional, os velhos são caçados e mortos nas ruas.
Essa noção do velho amaldiçoado por uma sociedade acelerada, em que os músculos e a grosseria adolescente são colhidos pela permissividade da família e das ideologias avacalhadas, é um reflexo da contrapartida do filicídio, o atentado e a discriminação contra as crianças. Pois, na verdade, a comunidade que desrespeita um de seus estamentos não respeita nenhum.
Diga-se de passagem, essa fenomenologia não é só do nosso tempo. Já os índios nhambiquaras tinham uma só palavra para designar jovem e belo e outra para velho e feio.
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento; a psicologia constata que velhos são os outros, nunca nós mesmos, paradoxo denunciado por Sartre.
Aliás, um de nossos dicionaristas arrola no verbete "velhice": "rabugice ou disparate próprio de velho"; e, em "velho": "desusado, antiquado, obsoleto". Esquecido que era, talvez, da sua própria velhice. Ah, as armadilhas ideológicas da lingüística...
O critério de velhice é muito relativo, dependente que é de fatores subjetivos e objetivos os mais diversos: para Hipócrates, aos 50 anos; para Aristóteles, que associava essa idade ao apogeu do indivíduo, aos 35 anos; e para Dante, aos 45. A menina casadoira acha-se "velha" aos 25 anos...
Sem que se faça a apologia do Matusalém bíblico, uma sociedade só merece a consagração humanística quando entende que "the answer, my friend, is blowin" in the wind", porque, na verdade, começamos a envelhecer a partir do nascimento. A função da vida é acomodar a pessoa ao presente em mudança. Com referência ao idoso, é bem-vinda a criação de uma legislação de amparo, simultânea a uma conscientização, privada e pública, do problema.
O destino se ri dos planos dos homens. Numa cultura narcísica, em que o ser se confunde com o prazer, o uso, o consumo, um presente sem passado e sem futuro, a morte é exilada. Contrariando Freud, o mal-estar não se origina na informação de que o homem é o único animal que sabe da morte. Na verdade, o ser humano é o único animal que sabe da eternidade, e o mal-estar se produz na incerteza, o estreito vagido entre o ir e o vir.
Grande desafio, o maior, paralisa a medicina, intriga a psicologia e provoca a teologia. Qual o sentido da falta de sentido aparente da morte? Qualquer tentativa de lógica nos remete a um raciocínio por semelhança. Qual o sentido ou a falta de sentido do nascimento? Biofilia e necrofilia, pólos opostos que imprimem as margens de nossa vida.
Viver é perigoso, filosofa Guimarães Rosa. Morrer deve ser uma tremenda aventura, diz Peter Pan, e se instaura a dialética do absurdo.

JACOB PINHEIRO GOLDBERG, 75, doutor em psicologia, advogado e escritor, é autor de "Psicologia em curta-metragem" e "Cultura da Agressividade".

Publicado na "Folha de São Paulo" 05/12/2008.

terça-feira, 10 de março de 2009

Crise Sob o Ponto de Vista Psicológico.

O psicólogo, advogado e assistente social Jacob Pinheiro Goldberg fala sobre comportamento social no Brasil e no mundo. Com mais de 200 trabalhos publicados, ele acredita que uma nova postura dos jovens, das crianças e a ascensão das mulheres são fundamentais para uma melhor convivência social.

Dignitas – Como o sr. Analisa o comportamento social no Brasil face aos últimos acontecimentos. A morte de Ayrton Senna marcou final de uma época?
Goldberg – Em primeiro lugar, eu devo dar testemunho da relação pessoal e profissional que tive com Ayrton Senna na condição de consultor pedagógico do “Senninha”, uma chance e uma oportunidade de conhecer uma personalidade que se destacava pela coragem e pela inteireza. Acho que o carisma do Senna, ao contrario do que muitos alegaram, não foi fabricado. Outros ídolos do esporte já morreram no Brasil e não causaram a mesma comoção social. Eu acho que houve uma afinidade eletiva entre os grandes desejos e aspirações da sociedade brasileira e o Ayrton Senna. Hoje somos um país carente de autênticos valores, principalmente através das sucessivas crises morais no campo da política. Então, a perda de credibilidade que a opinião publica passou a ter pelos homens de destaque, se compensou através do sacrifício de alguém que colocava sua própria vida em risco permanentemente, num jogo com a morte. Me parece que o mito Ayrton Senna é extremamente enraizado na sua própria história, não é uma criação da mídia, como alguns pretenderam. A mídia só refletiu a dor e a angustia da perda que o país sofreu. Num livro que publiquei, chamado “A Clave da Morte”, eu discuto muito o expurgo que a sociedade ocidental contemporânea fez da morte. As pessoas vivem como se ninguém morresse, e quando a morte ocorre é tratada como se fosse um episodio incômodo e surpreendente, quando na verdade não existe surpresa nenhuma no fato de que alguém morra, esta é uma realidade inevitável. Hipocritamente, as pessoas tentam imaginar que a morte não existe e quando alguém morre alguém como Ayrton Senna é como se isso nos visitasse e nos informasse “morre sim”. Muitas pessoas choraram não só pelo Senna como também pelos seus entes queridos mortos.

Dignitas – Podemos afirmar, então, que para a sociedade brasileira o Senna era a imagem da pessoa que “deu certo”? Era um referencial de vitória, fama, fortuna, sucesso?
Goldberg – Acho que podemos considerar o Senna a imagem de um ser humano exuberante, alguém que viveu com intensidade a sua vida e sua morte.

Dignitas – Estamos às vésperas de mais um acontecimento importante para os brasileiros, que é a Copa do Mundo, nos EUA. Estranhamente, nessa época, estamos vivenciando uma certa “idolatria” por outro atleta com características diferentes do Senna, que é o caso do Romário. Como ambos capitalizaram simpatia da opinião pública com posturas tão divergentes?
Goldberg – Eu fiz uma palestra recentemente sobre “Paixão e Futebol” e, posteriormente, a “Gazeta Esportiva” publicou dois estudos que fiz sobre a seleção brasileira. O primeiro, publicado há um ano, faz algumas criticas ao técnico Parreira. O outro, mais recente, é um perfil dos jogadores, inclusive do Romário. Existe, de comum, a autenticidade, que é certamente um catalizador de simpatia da opinião publica. Não importa muito os traços de caráter singulares de cada um. O fato é que ambos, cada qual à sua maneira, são indivíduos temperamentais, explosivos, enfim, estão consoantes com seus sentimentos mais profundos. Isso sempre impressiona uma opinião pública esgotada por tanta hipocrisia.

Dignitas – Mesmo com a chegada da Copa, que sempre foi motivo de alegria para os brasileiros, e às vésperas das eleições, na qual elegeremos praticamente todo o quadro político nacional, nota-se um apatia e uma descrença muito grandes da população com ambos os fatos. Por que isso ocorre? Estamos caminhando para onde?
Goldberg – O Brasil, historicamente, tem vivido traumas de perdas muito profundas. Getúlio Vargas se suicidou, frustrando a opinião publica. Jânio Quadros renunciou à Presidência da Republica, decepcionando alguns milhões de eleitores. O presidente Tancredo Neves sobe a rampa do Palácio do Planalto morto. Ulysses Guimarães desaparece num trágico acidente. Agora, a morte de Ayrton Senna, depois do impeachment de um presidente eleito que renovou as esperanças de milhões de pessoas e foi impedido por corrupção. Então, estamos vindo de sucessivas frustrações que vão recalcando as esperanças e criando um clima de ceticismo. O país está cético. Também não podemos esquecer a ingenuidade que existia em torno do esporte, do futebol em particular, está acabando.

Dignitas – O senhor diz isso baseado em que? Nos altos salários dos jogadores?
Goldberg – Não só isso. Por exemplo, o primeiro ministro da Itália, o fascista Berlusconi, precisava da aprovação do Senado para sua indicação. Havia possibilidades de rejeição. Num discurso, Berlusconi tomou a palavra e disse aos senadores: “Vocês não podem esquecer que sou dono do Milan”. Nesse momento, foi aplaudido pelos senadores e sua indicação foi aprovada. Hoje existe um intercambio intenso entre corrupção, política e futebol. É lógico que o povo percebe isso e tem suspeitas. O fato de cada jogador da seleção brasileira ganhar a Copa, receber US$ 100 mil é um contra-senso. Um operário teria que trabalhar mil meses para receber o que cada jogador ganhará. Isso não inspira entusiasmo. O futebol de glória, de legenda, de heroísmo, está corroído.

Dignitas – O voleibol está ocupando esse espaço no coração dos brasileiros, ou ainda é precoce essa afirmação?
Goldberg – É precoce. Mas o fato é que o futebol profissional, com todo esse processo, perderá espaço na espontaneidade. As torcidas, que estão se transformando em verdadeiros bandos selvagens, contribuem para isso. A marginalidade está invadindo as arquibancadas.

Dignitas – Qual a diferença entre mito e ídolo?
Goldberg – O ídolo é o chamado herói, é admirado, respeitado, querido. É alguém que tem uma realidade muito intensa no sonho coletivo das multidões. Ele corresponde ao atavismo e ao arquétipo do cidadão comum. O mito é uma criação, é uma elaboração que tem algo de transcendente. O mito perde o contato direto com a concretude e transforma-se na fantasia, na abstração. Portanto, ele habita mais o imaginário e o simbólico.

Dignitas – Kurt Cobain, o ex-vocalista do Nirvana que se suicidou recentemente, esta sendo considerado um mito para a juventude. É correto esse conceito?
Goldberg – Nós vivemos numa época de rebaixamento de horizontalidade. Tem sido transmitido para a juventude que fé, esperança, decência, humildade, enfim, sentimentos positivos, são piegas e ultrapassados. Isso não é verdade. Eu, que trabalho com o comportamento dos jovens, percebo que, na realidade, o jovem tem a busca que sempre existiu na condição humana, de consonância consigo mesmo, de realização própria, de plenitude. Isso passa muito pela linha da integridade. Só que integridade tem sido considerada como desgastada, isso é fruto de todas as crises sociais contemporâneas, inclusive das guerras e conflitos. Então, um individuo como Kurt Cobain, que é obviamente um doente – alguém que se suicida é sempre um doente – ser transformado em mito e, na verdade, uma exploração brutal que a “imprensa marrom” e uma parte da mídia usam para tocar a sensibilidade, principalmente dos jovens.

Dignitas – Hoje, assistimos ao surgimento de tribos urbanas que não passam por uma organização previa, como acontecia há 20, 30 anos. Tudo acontece de maneira fluídica e é caracterizado por posturas e visuais extremamente depressivos que se contrapõem à época de Woodstock, que representou a ruptura de valores, a liberdade de expressão. O tempo entre os fatos é muito curto. Na sua análise, o que mudou?
Goldberg – Quem trabalha muito bem isso é o autor de “Massa e Poder”, Elias Canetti. Ele diz que as massas têm uma tendência de perda de identidade, são frágeis e ao mesmo tempo perigosas. Perigosas pelo número de pessoas e frágeis pela falta de estrutura de caráter. Elas são desmoralizadas e desmoralizantes e vivem de ondas, os indivíduos são vazios. Qualquer onda é capaz de comovê-los, seduzí-los e fasciná-los. Em um dos meus livros, chamado “Psicologia da Agressividade”, faço uma citação de uma referencia a esse envileciemento, esse empobrecimento dos paradigmas. Qualquer cretino hoje pára numa esquina e grita que é o anunciante de uma nova seita e daqui a pouco terá milhares de seguidores, ou monta um conjunto dizendo ser o representante de satã e será endeusado. Vivemos uma espécie de “guerra de civilização”, os grandes choques culturais da metrópole. A Grande São Paulo, esse enorme acampamento vertical, tem mais gente que todo o Mundo Antigo. Nas grandes cidades, as pessoas não têm inter-relacionamentos e mergulham na solidão mais profunda, quase que na antropofagia.

Dignitas – Qual a influencia da industria cultural e da mídia, principalmente da tevê, no comportamento social contemporâneo?
Goldberg – A televisão no Brasil transformou-se numa escola de crimes e de ignorância. É raríssimo assistirmos a um programa que tenha qualquer densidade informativa profunda, além do que não existe o menor respeito pela sensibilidade do telespector, da criança ao adulto. O mesmo locutor que anuncia uma catástrofe, com o mesmo ar de neutralidade, anuncia uma festa. Isso vai dessensibilizando o telespectador.

Dignitas – A polemica é o grande trunfo de marketing da atualidade?
Goldberg – O que acontece é o seguinte: os ícones foram derrubados. A iconoclastia é uma realidade da nossa época, e isso tem vantagens e desvantagens. A vantagem é que ninguém mais concorda com o papel passivo de “babaca”; essa idéia de admirar alguém gratuitamente, felizmente, terminou. Qualquer individuo que quiser hoje se destacar terá que se submeter a um juízo crítico. A desvantagem é que isso se transformou mais ou menos num vicio de retórica, todo mundo xinga todo mundo porque isso traz audiência. As pessoas se permeabilizam, não instauram um verdadeiro diálogo.

Dignitas – E o que isso gera?
Goldberg – Isso gera uma crise permanente de valores. Porém, não obstante tudo isso, é preciso notar que Caim matou Abel, e não havia explosão demográfica naquela época. O ciúme e a inveja, que são sentimentos que habitam a alma do homem, foram capazes de levar a esse terrível fato. Faz parte da contingência humana ter que aprender a conviver com esses sentimentos difíceis, porém existem aspectos muito positivos na contemporaneidade. Hoje existe mais um senso democrático, existe uma ascensão das mulheres que eu acredito que seja um dos movimentos capazes de mudar toda essa paisagem.

Dignitas – A revolução feminista não está enfraquecida?
Goldberg – Eu acredito que ela ainda nem começou. Na primeira etapa ela tem sido uma revolução com o objetivo de equiparar o direito da mulher aos direitos do homem. Mas o grande contributo feminino nem sequer começou. Ele vai mudar e aliviar, através da sensibilidade, da ternura, dos valores uterinos, a grosseria do machismo que fracassou. O machismo fracassou como civilização e como cultura, ele levou a uma situação de impasse. A periculosidade se instaurou por inteiro em todo o mundo através do mau uso do poder fálico. Chegou a hora de ceder espaço para a mulher.

Dignitas – Além das mulheres, existe algum outro fator que possa abrir novas alternativas para uma melhor convivência social?
Goldberg – Acho que devemos levar em conta as crianças. Essa é uma revolução que ainda não se inaugurou. Elas são tratadas como se fossem adultos mirins, debilóides. Isso não é verdadeiro. A criança tem um papel destacado e precisa ser ouvida, respeitada. Hoje ela é humilhada e desprezada pela falta de força física, assim como a mulher. Os jovens também precisam tomar posições deferentes, ao invés de fazer imitação barata e vulgar da boçalidade da gerontocracia. A press ão de todas as minorias que têm algumas coisas importantes para dizer numa sociedade plural e democrática é fundamental para uma nova convivência social.

Revista Dignitas Salutis – n. 16.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Psicanálise e Literatura

Num debate realizado pela “Folha de São Paulo”, na série Diálogos Impertinentes, defendi a tese, politicamente incorreta de que só através da alienação, o individuo se desaliena das amarras aparentes do Real. Penso e falo em cut-up, melitzá. Á quem interessa a linearidade, pergunta Bergman.

É no terreno etéreo e inespacial da subjetividade que a psicanálise e a literatura se entrecruzam numa relação incestuosa e adúltera, eis que rompem regras e fingem rituais.

O mais importante psicanalista de todos os tempos, o que encarou no sentido de enxergar e de encarecer a conduta humana foi Marcel Proust entre os passados possíveis e impossíveis, portanto imperdíveis.

O mais importante romancista de todos os tempos é Zygmunt Freud que criou uma narrativa universal, em cima de uma fábula grega que se dasabrocha e fenece na vida de cada um.

O paciente que se dispõe a desenrolar sua narrativa, conto, romance, poesia é o co-protagonista e co-autor, junto com o psicanalista de um raconto que lembrou Jorge Luiz Borges precisa ser traduzido como “Mil noites e mais uma” e não “As mil e uma noites.”

Scherazade descobre como não se morre (e o paciente como não se adoenta ou como se cura). O sultão não quer um mero “affaire”, os corpos que se unem por uma noite e no orgasmo (a pequena morte da medicina clássica) que finda.

O sultão está em busca de continuação, do final, enfim, do SENTIDO das vidas que se entrelaçam, projeção de sua própria vida, correndo da necrofobía, atrás da eternidade.

O efêmero é a síndrome do pânico que desencadeia sua necrofilia, a vontade de matar e no objeto cadavérico o atestado de sua desimportancia.

Ágape e Eros, demandam uma voz que conta e encanta, o encantador de serpente e um ouvido que ouve e interpreta, o olho que enxerga precisa se distrair ou ler na biblioteca universal, ainda na metáfora borgeana.

Cedo, muito cedo, no curso primário, em Juiz de Fora, aonde nasci, no colégio metodista, Instituto Granbery, vivi a contradição cultural e religiosa de filho deimigrantes judeus poloneses e aluno de assembléia teológica de exaltação a Jesus. Condimentado na vitima de “bullyng”, pelas orelhas de abano e o apelido conseqüente, “Dumbo”. Ou o judeu que crucificou Cristo. Eu, hein?

Não bastava.O pré-nome Pinheiro, dado em homenagem a meu tio Pinkas criava suspeita entre os judeus, Será um “misto”? Embora neto materno do Rabino Aron Elwing, ficava a dúvida paranóica.

E as aflições e esperanças, depressão e euforia daqueles anos em que o Brasil vivia a ERA DA INOCENCIA e que hoje desemboca na ERA DO CINISMO.

Escrevi num dos meus primeiros livros – quem nasceu no meio daquelas montanhas, sem o horizonte do mar, e nestas circunstancias tem a alternativas da poesia ou da demência.

Dom Quixote é o vestibular da modernidade desconstrutiva, na literatura em que Cervantes antecipa a “weltschmerz”, agonia em que Freud desenha o painel do “humano, demasiadamente, humano”, de Goethe.

E se faz a citação que lembra o verso surreal em Dante- “chove na mais alta fantasia”. É no Talmud, este repositório de uma sabedoria não linear que se funda esta arte-ciencia que colore o século XX e há de responder ao século XXI, e não a Economia, Sociologia ou qualquer das chamadas artimanhas que o demônio mentiroso do concreto propõe: “um sonho não interpretado é como uma carta não aberta”.

Quando li, vez primeira, em Luiz de Camões – “Alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente, repousa lá no céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste”, fiquei atento ao literal, o desespero do vate que perdera sua musa inspiradora. Surpreso ao ler uma versão para o inglês do inicio do verso – “ My gentle spirit”, no viés entendi que se tratava do rasgo neurótico. Com a morte da mulher querida, ele, Camões vive e morre. Um em dois, o “insighit” revelou que o Eu iria descansar e o eu minúsculo, seu corpo iria mergulhar na melancolia, na depressão.

Portanto, símile a “O Corvo” de Edgar Alan Poe, o passado, tecido agridoce de lembranças ficaria repetindo o “Nunca mais”, que agora, neste instante, neste momento, neste lugar, nesta estória que estamos elaborando juntos, eu “num causo”, juntando associações e lapsos, ausências e presenças, celebramos em comunhão. Comunhão esta que me reporta a meu pai que contava o “witz”,referido por Freud e que sempre tinha o sabor dum testamento.

Rindo, chorando, no estado que o espanhol define como o de “mala sangre”, ou na gargalhada provocada pela anedota banal, Machado de Assis, cessa, praticamente seu veio maior quando sua mulher, sua ouvinte morre e ele morre em seguida, mesmo porque esta é a suprema manifestação que o americano chama de “serendipty”, o estado em que o universo nos harmoniza com o fluxo enigmático do destino.

Nasrudim, o sábio tolo, do sufismo, recebe os sábios da aldeia que pedem que lhes revele a história da verdade. Nasrudim exige pagamento à população que acorre á praça para ouvi-lo. “Alguém conhece a verdade?”

A população responde em coro-Não! Nasrudim se afasta resmungando, se ninguém conhece a verdade é inútil discutir. Os lideres da aldeia reclamam e Nasrudim retorna e a população já combinou a resposta. “Alguém conhece a verdade? Sim! Responde o coro. Ora se conhecem a verdade vou me embora”. Pela terceira vez os chefes exigem sua presença e a população já preparou outra resposta. Alguém conhece a verdade? “A metade dos presentes responde que sim, a outra metade que não”. Clímax. “Nasrudim sorrindo desfecha – A metade que sabe conte para a metade que não sabe”.

O silencio do psicanalista, os percursos, a tragédia e comédia que se realiza no drama, encontra um ponto de inflexão na obra de Ítalo Svevo, “A consciência de Zeno”.

No prefácio o Doutor S. escreve – “Seja dito, porém que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo: Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou”...

O Premio Nobel de Literatura, japonês Kenzaburo Oe, escreveu um livro semi-auto-biográfico. “Jovens de um novo tempo, despertai”. Trate-se da comovedora história de um pai que tendo um filho deficiente, excepcional, inspira-se em versos do grande poeta William Blake – E tudo se inicia com esta passagem antologica – “Pai!

Pai! Aonde vais? Não andes tão depressa. Fala, pai, com teu filhinho,senão me perderei.”

Or else I shall be lost.

Esta a quintessência do que pretendi com esta exposição e que arremato, com um poema de minha autoria que foi traduzida para o polonês pelo professor Henrik Siewierski, das universidades de Cracovia e de Brasília um peregrino da cultura, publicado no livro “Magia Wygnania”. A incomunicabilidade que tenta se comunicar.

O Cavalo e Eu.

Extasiado, fiquei olhando os olhos do cavalo. Mas enxergava mais o êxtase que os seus olhos.

O cavalo, porém, me olhava e (parece) me enxergava.

E assim, ficamos tão perto nos olhando, e, no entretanto, as infinitas distâncias, sei que jamais o enxergaria.

E ele, o cavalo, quem sabe, pudesse, realmente, me enxergar, como eu mesmo, jamais me veria.

Os objetivos são comuns, da psicanálise e da literatura a compreensão do Outro, o resultado é o mesmo – o fracasso e no fracasso, o êxito – A ruptura do tabu – No Inicio era o Verbo - E no fim, na saga de “Afirma Pereira” de Tabucchí. A Palavra rompendo a representação de Zelig, O kafkeano personagem de Woody Allen.

No fecho , desfecho a intrigante pergunta que embuti no meu verso – “Por onde andará, oh Deus, minha sombra enlouquecida?”

Não é matéria de literatura, não é discurso psicanalítico.

Não a cegueira incurável do obvio sangrento mas a lucidez em Dostoievski.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Observatório da Imprensa - contém um ingrediente midiático que conviria destacar: é quase todo dirigido contra um desconhecido dr. Jacob Pinheiro.

Resposta a Alberto Dines também conhecido como "boquinha" -

1 - Desconhecido? A “Folha” publicou meu artigo (a pedido de sua direção) na pag.3.
A revista “Bravo” contestou com texto e fotos em várias paginas. O próprio “Observatório” transcreveu (sem minha autorização e sem pagar...). O artigo teve ampla repercussão nacional e internacional, o que para desgosto do alberto sempre acontece.
O snr. Dines (em Ydish – Alte Ligner, o mentiroso) finge que não me conhece. Talvez, talvez. Duvido e faço pouco. Me conhece, ele e seu bando. Somos de tribos opostas.
Eu o conheço muito bem – “O mais importante jornalista brasileiro” segundo ele mesmo. Sem duvida o mais bem financiado – produção financiada por bancos e alcatéias.
2 – Olavo de Carvalho já deu uma lição de dignidade ao Dines que pediu desculpas pela sua língua de trapo.
3 – Os jornais, inclusive o seu “Observatório” é que publicam meus trabalhos, por meu conteúdo de honestidade, interesse social e altitude intelectual.
4 – Com 13 anos de idade escrevi para os jornais de minha cidade natal, Juiz de Fora, Minha carteira da Associação Mineira de Imprensa é de 62 anos atrás!
5 – O “suicídio” de Stefan Zweig foi explorado, comercialmente, pelo snr. Dines, cujo pai Israel junto com a policia enterraram o maior escritor do seu tempo. Como dói uma verdade que nem a sua psicanálise curou (confissão de Alberto em entrevista).
6 – Minha tese sobre Zweig foi abonada pela professora doutora Anita Nowinski, da U.S.P – insultada, grosseiramente pelo pobre diabo Alberto cuja elegância fica ao nível do charco. Que o diga Boris Casoy e centenas de vitimas de sua vulgaridade.
7 – Não sou líder de nenhuma comunidade ou gueto, mas sou minha integridade e trabalho, humilde e sincero, ao contrário do que suas tietes escrotas escrevem em textos de calunias.
8 – Não sou censor do cristianismo como pretende eleger-me. Leia minha vasta obra, Alberto – especialista do nada e constatará o espírito humanístico ( Vide “Jesus, o judeu”).
9 – O joguinho de palavras Goldberg / Iceberg é expressivo de sua mente – doentia e sórdida.
10 – Nenhuma palavra de Dines a meu respeito é verdadeira. Amontoado de inveja, cinismo e ódio por seu complexo de inferioridade.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

João Adolfo Hansen comenta Jacob Pinheiro Goldberg

Sobre a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg o doutor JOÃO ADOLFO HANSEN, professor titular de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, escreveu: “A primeira vez que vi Jacob Pinheiro Goldberg, ele estava na TV, falando do sadismo da burguesia brasileira que goza fazendo o povo sofrer. Desde então, passei a gostar muito dele. Depois, fiquei sabendo pela minha amiga Marília Librandi, que escreve a introdução exata e delicada deste livro, que Jacob nasceu em Juiz de Fora. Era Pinchas, judeu de origem polonesa, mas desabitou o nome, virou Pinheiro. O Brasil é mesmo impossível. Acho que cresceu como qualquer um de nós, sobrevivendo às contingências da vida daqui. Parentes dele foram assassinados em campos nazistas. Estudou Direito, para que descobrir que a Lei submete e que o Espírito liberta. Ateu, passou à psicanálise freudiana. A matéria da sua poesia é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não-estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. Na sombra, à esquerda da linguagem, ele escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contra-efetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal. Você, que agora lê esta orelha, talvez pense que essa forma de expressão da dor é própria da experiência histórica do povo judeu. E pensará bem, com razão. Mas só em parte. Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizerem de nós. Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da Lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlância, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados. A liberdade de Jacob é livre, ou seja, generosa, e faz seus poema espaçosos para recolherem compassivamente os cacos da história universal de um ‘nós’ despedaçado. São fortes, os poemas de Jacob, duros, intensos, sem nenhum consolo, comoventes. Podem até fazer desesperados pensar que, se ainda há homens como ele, há esperança para todos. Daqui desta orelha eu mando meu abraço pra ele.”, in “Poemas-vida, antologia de Jacob Pinheiro Goldberg”, organizado e apresentado por MARÍLIA LIBRANDI ROCHA, professora de Teoria Literária no Departamento de Estudos Lingüísticos e Literais da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo e, a partir de dezembro de 2008, professora da Stanford University, CA, EUA (Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2008).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

VIVER NÃO É PRECISO, NAVEGAR É PRECISO.

No artigo “Jovens e velhos” (9/12 – “Folha”) João Pereira Coutinho prossegue na defesa de sua tese da vida humana como escala cronológica. Só vale até os 74 anos de idade fazendo exceções, na qual me inclui. A “Folha” reporta no mesmo dia o nascimento de uma filha de indiana de 70 anos.
Agressivo e inteligente exige de mim (pobre monoglota) um esforço digno dum Helio Gracie, 95 indo para o tatame. Que assim seja.
No prefácio que escrevi para a “História da Morte no Ocidente” de Philipe Áries deixei implícito que a tanatofobia é um traço de nossa cultura, o que expliquei em “A clave da Morte”, o que só pode ser aliviado com o conceito transitivo que nos remete ao eterno.
É uma longa viagem. Animal bípede, vivente no solo da família dos primatas. Aprenderá a falar e fabricar utensílios reconhecíveis. No fim da primeira etapa, aprendeu a usar o fogo, surgiu solitário, na sua classe de animais. Era biologia.
Na segunda etapa, aprendeu a cozinhar alimentos e fazer roupas quentes. Criou o arco e a flecha e domesticou o cão para a caçada. Melhorou sua habilidade.
Na terceira etapa, cultivou plantas, celebrou a cerâmica, fez carroças, fundição do cobre, escreveu, carvão, máquinas a vapor, comércio, imprensa, dinheiro, canhão. Desgastou o planeta e a natureza sofreu. Uma história de mais de um milhão de anos.
Aonde conduzirá esta aventura a que começou com os longínquos antepassados? Saberemos combinar os dons e adivinhar? Ou, como macacos nas árvores, nossa visão será a de meros sobreviventes, os que não puderam dar o salto que liberta da angústia e do medo? Enfim, relativizar a morte. É uma longa viagem, que apenas começou.
Acompanhando o estilo personalizado de Coutinho, um contador de “causos” vou arrolando.
Em palestra que proferi no Curso de pós-graduação em psico-oncologia, no Hospital do Câncer relatei –
Valentim Rasputin nasceu em 1937, num povoado chamado Ushti Udá, nas margens do Rio Tangará, na Sibéria. Ele tem um conto chamado “A Velha”. Uma mulher encarquilhada e muito velha ficava deitada num catre permanentemente gemendo. Ela tinha sido xamã na juventude, que é um feiticeiro, que cura com ervas, crendices, encantos e feitiços, mas o xamanismo foi proibido na União Soviética, perseguido e punido. A velha diz à filha: “Minha filha, eu estou morrendo”. E a filha diz: “Você está com medo?” A velha: “Não estou com medo, estou preocupada. Todo o meu saber, tudo o que eu conheço, quando eu morrer, não vou ter para quem passar, são centenas de anos de conhecimento que vão morrer comigo, e eu queria passar pra você.” A filha diz: “Você, além de doente, está louca. Isso são crendices e superstições estúpidas e absurdas e a mim não interessa ser feiticeira, xamã”. A velha começa a grunhir de dor. A neta entra e pergunta: – “Por que ela está gemendo?” – A filha: – “Por que ela pensa que é uma xamã”. A velha chama a neta e diz: “Eu quero transmitir o saber para você!” E a menininha sai correndo de medo. E a velha morre. No dia do enterro, o prefeito da cidade e os vizinhos fazem discursos em homenagem à velha, o prefeito diz: “Ela era uma grande cidadã, ela participava sempre das atividades cívicas da nossa cidade”. Uma vizinha diz: “Ela era uma grande vizinha, sempre amiga.” Outra diz: “Eu a conheci quando jovem, ela era muito bonita”. E assim vai. A cerimônia termina. No dia seguinte, a menina sai clandestinamente de casa, vai ao cemitério, chega perto da sepultura da avó e repete essas frases: “Ela era uma grande cidadã. Ela era uma grande vizinha, sempre amiga. Ela era muito bonita.” Ela olha pra pedra e diz. “Está vendo vó, você não morreu, eles enterraram uma outra mulher.”
Uma sociedade que conhece a linha divisória exclui sempre. Exclui o negro, o homossexual, o obeso, o excepcional (que Coutinho chama de débil mental), um morador de rua, o fumante e o velho, um gênero de feiúra etária.
“Last but not least” a professora Vanessa Barreto da Universidade Estadual de Montes Claros leu o artigo da revista “The Lancet” em que Coutinho alega ter se baseado para elaborar sua esdrúxula concepção de vida e morte: http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(08)61594-9 e chego a conclusão de que João não sabe interpretar a língua inglesa. Analisando –
"A revista britânica 'The Lancet' resolveu fazer um estudo sobre a qualidade de vida a partir dos 50 anos." (J.P. Coutinho) O artigo propôs-se a estudar as desigualdades de anos de vida saudável em 25 países da União Européia em 2005.
"Porque viver mais não significa viver melhor." (J. P. Coutinho) (?)
Viver mais também não significa viver pior. O artigo da "The Lancet" relata que embora a expectativa de vida na UE esteja em franco crescimento, não se sabe se tais anos extras são vividos com boa saúde.
"A partir dos 50 anos, que esperança boa de vida têm os habitantes da União Européia? (J.P. Coutinho).
Essa indagação não está presente no artigo.
Foram calculados através do método Sullivan, expectativas de vida e de anos de vida saudável a partir dos 50 levando-se em consideração o sexo e o país.
Descobriu-se que os anos de vida saudável bem como a expectativa de vida variam largamente nos 25 países envolvidos na pesquisa, e estão relacionados a fatores que vão desde renda total familiar, passando por gastos com seguros de saúde, desemprego (influenciando negativamente) até aprendizagem por toda a vida (positivamente).
A pesquisa conclui, diferentemente do que tenta mostrar o artigo do Coutinho, que existem desigualdades substanciais em HLYs (anos de vida saudável) nos países da UE e não, que não há vida após os 50.
O estudo sugere ainda o que preconizo: sem melhoras ou políticas que promovam o bem-estar aliado à longevidade, a participação dessa população na força de trabalho fica difícil nos 25 países pesquisados.
Devo registrar que a divergência entre mim e Coutinho é insanável. Acredito na vida como sentido e não como processo em finitude.

Jacob Pinheiro Goldberg
(Psicanalista, autor de “Don’t let me die”, S.O.S Woman, E.U.A e Instituto Emilio Ribas, “Clave da Morte” e “Cultura da Agressividade”.)